Inicial - Cristianismo Hoje - Cristianismo Hoje http://cristianismohoje.com.br Mon, 29 May 2017 01:44:22 +0000 Joomla! - Open Source Content Management pt-br O sofrimento e o consolo http://cristianismohoje.com.br/colunas/osmar-ludovico/sofrimento-e-consolo http://cristianismohoje.com.br/colunas/osmar-ludovico/sofrimento-e-consolo O sofrimento e o consolo

Quando menos esperamos, o sofrimento bate à nossa porta, entra sem pedir licença e se instala em nossa casa.

Quando menos esperamos, o sofrimento bate à nossa porta, entra sem pedir licença e se instala em nossa casa. É uma visita incômoda, inoportuna e dolorosa. E ele se manifesta de muitas maneiras: na perda de um ente querido; no conflito que gera ruptura na família; na violência gratuita que nos vitima na rua; no filho que faz escolhas erradas; no diagnóstico da moléstia incurável; no acidente grava; no desemprego; na experiência de traição ou humilhação… Muitas são as formas, mas o sentimento comum a todas é: sofrimento

Lamentavelmente, a Igreja contemporânea, com seu exagerado triunfalismo, prega que o mal já está vencido. Por isso, o crente precisa ter uma vida próspera, vitoriosa e sem sofrimento. Uma das abordagens pós-modernas da fé cristã ensina que quem está sofrendo fez algo errado. Ou encontra-se em pecado e sob o domínio de Satanás, ou não crê nem confia em Deus a ponto de contribuir financeiramente ou, então, está na igreja errada. É um Evangelho de ofertas, que nega a dor e a perda. Um Evangelho que que desconhece que a Igreja de Jesus Cristo foi gerada, no primeiro século, com perseguição e sofrimento – e que esta Igreja continua sofrendo em várias regiões do mundo por causa do nome do Senhor.

Diante do sofrimento, perguntamo-nos, perplexos: “Como pode um justo sofrer nas mãos de um Deus que diz que é bom?” O sofrimento é um mistério. Não podemos explicar como pode um justo sofrer diante de um Senhor que é bom e que tem tudo sob seu controle. Sabemos, no entanto, que o Deus das Escrituras é pai de Jesus Cristo – o Deus encarnado que sofreu conosco e sofreu por nós. Por isso, ele nos compreende e caminha conosco nas nossas dores e angústias, consolando-nos e enxugando as nossas lágrimas. Um dia, nos encontraremos com ele e, como Tomé, tocaremos nas cicatrizes de seu amor por nós. Só mesmo um Deus ferido pela tragédia humana poderia nos curar e nos salvar.

Acompanhamos José na sua biografia relatada no Gênesis e nos compadecemos de todos seus infortúnios: primeiro, o ódio de seus irmãos, que o lançaram em um poço e, para livrarem-se dele, venderam-no como escravo. Depois, foi vitima da armação de uma mulher casada que, inconformada por ser rejeitada pelo rapaz hebreu, fez o marido jogá-lo no cárcere. Mesmo assim, a Bíblia não registra reclamações ou atos de rebeldia por parte de José. Do abandono e humilhação, tornou-se um ministro poderoso do Egito. Quando uma grande fome assola Israel e seus irmãos vêm ao Egito buscar comida, é José que os recebe no palácio real. Ele os tem em suas mãos para julgá-los ou despedi-los de mãos vazias; em vez disso, ele chora e se dá a conhecer a eles. Os irmãos temem uma vingança, mas José os perdoa, dizendo que não foram eles que lhe fizeram tudo aquilo, mas Deus que, em sua providência, transformou o aparente mal em sofrera em bem para todos.

 No livro de Jó, Satanás se apresenta perante Deus e diz que ninguém o ama desinteressadamente. Na ótica diabólica, se o Senhor fizesse cessar as bênçãos sobre a vida de Jó, este se voltaria contra ele. Deus, então, dá permissão para o diabo oprimir a Jó, que perde tudo que tinha, vê a morte dos filhos e, por fim, adoece gravemente. Mesmo diante da incompreensão da própria mulher e do consolo ineficiente de seus amigos, Jó diz: “Eu sei que o meu Redentor vive, por fim se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o verão, não outros; de saudade me desfalece o coração dentro em mim”. Em meio à suas dores, sem entender o que lhe acontecia, Jó se entrega ao seu Senhor, expressa seu desejo e amor por ele e, cheio de esperança, sabe que o mal vai passar. Depois de tudo, quando o sofrimento cessa, ele conclui: “Eu te conhecia só de ouvir; agora meus olhos te veem.”

Em meio à humanidade que sofre, descobrimos que não somos os únicos, e que o sofrimento é parte integrante da nossa experiência existencial. Sabemos, no entanto, que o sofrimento, a maldade, a violência, a mentira, o ódio e a morte têm prazo de validade; eles são efêmeros e passageiros. A ressurreição de Jesus Cristo é o registro, no meio da História, de como será o final dessa mesma História. Ele nos assegura que somos parte de um projeto eterno, e que viveremos nossa humanidade de forma plena, sem sofrimento ou morte. Assim, para aqueles que buscam e praticam o bem, a eternidade já começou, pois o bem é eterno e o mal, passageiro.

O sofrimento nos mobiliza de tal maneira que não percebemos que ele sempre vem acompanhado. Uma companhia discreta, mas presente. A santa, bendita e doce presença do Espírito Santo, também chamado de Consolador.

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Osmar Ludovico Fri, 19 Aug 2016 14:11:52 +0000
Dez coisas para eu voltar para a igreja http://cristianismohoje.com.br/colunas/carlo-carrenho/des-coisas-igreja-carrenho http://cristianismohoje.com.br/colunas/carlo-carrenho/des-coisas-igreja-carrenho Dez coisas para eu voltar para a igreja

A igreja que me quiser como membro não poderá fazer parte do gueto cristão. Cheguei a um ponto em que, simplesmente, cansei da cultura evangélica, das atitudes discriminatórias dos crentes e da hipocrisia generalizada.

Há anos, parei de ir à igreja. Cheguei a um ponto em que, simplesmente, cansei da cultura evangélica, das atitudes discriminatórias dos crentes e da hipocrisia generalizada. Não me lembro de um momento específico de desistência, uma última gota, digamos assim. Foi um processo e uma soma de fatores. Hoje, continuo me considerando cristão, acredito em Deus e tenho fé em Jesus Cristo, mas não sinto a menor falta de frequentar cultos dominicais. A única coisa que me incomoda é não ver meus filhos crescendo na tradição religiosa cristã de uma igreja – porém, minha esperança é que eles aprendam e absorvam a essência e os mandamentos cristãos dentro de casa.

Para esta coluna, resolvi me perguntar o que teria de mudar na igreja para que eu voltasse a frequentá-la. Sem querer ser pretensioso, cheguei a 10 pontos:

Respeito às minorias – Eu realmente jamais voltaria a frequentar uma igreja que não respeitasse todos os tipo de minoria e, particularmente, a comunidade LGBT. Se meus amigos gays não são bem-vindos socialmente a uma igreja, então eu tampouco posso ser.

Respeito a outras crenças – Sejam católicos, judeus, muçulmanos ou praticantes de Candomblé. Não importa; um verdadeiro cristão e sua igreja devem respeitar as diferenças, dialogar e conviver com as outras religiões, inclusive atuando junto com elas em esferas não religiosas. O mesmo vale em relação aos ateus.

Fim dos dogmas – Jacques Ellul já disse que fé pressupõe a dúvida, caso contrário não é fé: é dogma. Eu só volto para uma igreja que  esteja aberta a discutir e questionar todos os seu valores e regras, à luz do espírito bíblico, e sem atitudes dogmáticas.

Emancipação da mulher – A submissão da mulher ao homem descrita na Bíblia é um óbvio reflexo do contexto histórico e social dos tempos bíblicos. É inadmissível que, em pleno século 21, mulheres não possam ser pastoras ou sejam tratadas como membros de segunda classe nas igrejas.

Manifestação política – Eu só voltaria para uma igreja que não se abstivesse de criticar políticos e governos por atitudes incompatíveis com a fé cristã, Não me refiro a costumes, mas a questões de direitos humanos e igualdade social. Particularmente, eu só seria membro de uma igreja que não se calasse diante de políticos e líderes cristãos praticantes de discursos de ódio, adeptos da corrupção e de outras atitudes pecaminosas, como temos visto com frequência nos dias de hoje.

Ação social e defesa dos direitos humanos – Uma igreja que me queira de volta terá de ter um forte programa de assistência social e de defesa de direitos humanos, independentemente de objetivos proselitistas. Tal igreja ajudará o próximo em face de suas necessidades, sem exigir qualquer retorno espiritual.

Sermões inteligentes – A igreja para a qual eu for me integrar, um dia, terá sermões inteligentes e desafiadores. É inaceitável que tenhamos de ouvir mensagens rasas e preguiçosas na igreja, muito aquém do que ouvimos na universidade, na imprensa ou no trabalho. A igreja não pode ser intelectualmente inferior ao seu contexto.

Excelência artística – Se um dia eu voltar para a igreja, a música tocada ali não poderá ser inferior à música de outras bandas amadoras laicas. A arquitetura do templo não poderá ser inferior ao padrão médio da sociedade. Jamais vou aceitar a mediocridade cristã. Se algo é feito para Deus, tem de ser melhor do que aquilo que é feito fora da igreja.

Fim do gueto – A igreja que me quiser como membro não poderá fazer parte do gueto cristão. Seus membros serão cidadãos ativos na sociedade, com amigos, colegas e relacionamentos extrarreligiosos. Eles não ficarão preocupados em dividir o mundo entre cristãos e não cristãos, mas estarão dentro deste mesmo mundo, interagindo, para influenciá-lo e mudá-lo.

Laicidade – A igreja que eu frequentaria seria a favor da laicidade. Ela entenderia que quem não é cristão não tem de ser obrigado a viver de acordo com os princípios da Bíblia. Ela lutaria por uma sociedade melhor, e não mais religiosa, ou mais cristã – e, também, entenderia que só a laicidade é garantia da liberdade religiosa a longo prazo, sendo fundamental para a própria liberdade da Igreja.

Esta é a igreja ideal que estou procurando.

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Carlo Carrenho Sun, 12 Jun 2016 12:30:13 +0000
O Reino e a justiça http://cristianismohoje.com.br/artigos/especial/missao-integral-reino-e-justica http://cristianismohoje.com.br/artigos/especial/missao-integral-reino-e-justica O Reino e a justiça

Na frase “o Evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens”, a concepção de “Evangelho todo” é compreendido como o poder de Deus para a salvação de todo o que crê, assim como o poder de Deus para interferir na estrutura da sociedade e dar sobrevida à humanidade.

A Missão Integral se estriba na recuperação de dois conceitos. Em primeiro lugar, o conceito de justiça no tempos dos profetas hebraicos. Ele aparece nos escritos dos profetas, que vão dizer, como Amós (5.24), que a justiça deve correr como um rio que nunca seca. Todos os profetas hebreus levantaram a questão da justiça, e são eles que introduzem-na como um critério transcendente: a justiça, então, não é mais uma relação de poder entre fracos e fortes, entre vencedores e vencidos; ela é vista como uma demanda divina. O Senhor exige justiça; exige que os pobres sejam tratados com decência; exige, de fato, que não haja pobreza, e sim, libertação econômica, social e política. Tal concepção fica clara em instituições como a do jubileu e a do ano da remissão, mencionados nos livros de Levítico e Deuteronômio.

A justiça, portanto, nasce no coração de Deus e é introduzida na história humana pelos profetas hebreus. São eles que trazem a noção de justiça para a história, e trazem-na como um dado transcendente, e não como uma conclusão imanente – ou seja, não foram os seres humanos pensando sobre si, sobre a história, sobre a sociedade que chegaram à noção de igualdade, de justiça, de inclusão social dos pobres. Foram os profetas hebreus que trouxeram este elemento para a história humana, esta visão de que há uma demanda da parte de Deus por igualdade e dignidade para todos os seres humanos; pelo fim da pobreza, pelo respeito ao diferente, pelo abrigo ao estrangeiro, pela noção de direito humano. Isso vem diretamente de Deus. A ideia está espalhada por todo o Antigo Testamento, desde a lei de Moisés que é reforçada pelo profetismo hebraico que, na verdade, é um trabalho de recuperação do espírito da lei de Moisés, que clama por justiça. Este é o primeiro referencial da Missão Integral. É possível ver isso nos escritos de René Padilla, Samuel Escobar, Orlando Costas, Pedro Araña e muitos outros.

O outro referencial da Missão Integral é a recuperação da noção do Reino de Deus e sua justiça, a ideia de que esse Reino é um outro sistema que se opõe ao sistema vigente – tanto ao capitalismo quanto ao comunismo. Trata-se de um outro sistema, que vem não para estar ao lado dos regimes em pauta, mas para substituí-los, para erradicá-los. Isso aparece no profeta Daniel que, quando responde ao sonho de Nabucodonosor, fala sobre a pedra que é lançada por mãos não humanas contra a estátua. A estátua, no sonho de Nabucodonosor, sintetiza todas as tentativas humanas de resolver o problema humano sem considerar a hipótese de Deus ou sem considerar a revelação divina, tudo o que os homens tentaram em todos os níveis: o feudalismo, o capitalismo, o comunismo. E a pedra é o Reino de Deus, que vem e derruba a estátua, triturando-a, desfazendo todos seus componentes até transformá-la em pó. Um pó que é varrido pelo vento, de modo que da estátua não fica nem lembrança. A pedra cresce, alarga-se e toma toda a terra, ou seja, uma nova realidade assume o controle da história – e essa nova realidade é o Reino de Deus.

DISCURSO E PRÁTICA

O que se pleiteia, com a Missão Integral, é um discurso pastoral a partir da fé. Este discurso pastoral da fé, a partir da Missão Integral de Deus, é fruto da proposta missiológica surgida nos Congressos Latino-Americanos de Evangelização (os Clades), na década de 1960, que propugnava que não se pode “evangelizar sem considerar o contexto do evangelizando”. Sob tal ótica, a boa nova que se anuncia emana da realidade da chegada do Reino de Deus, que vem como proposta para a história. A tese daquilo que ficou conhecido como Missão Integral não se propôs a alterar as bases da fé bíblico-histórica, e sim, a ampliar os seus efeitos.

Um discurso pastoral da fé a partir da Missão Integral deve partir da premissa de que Deus se revela na história. De fato, não há, nas Escrituras, nenhuma revelação que não esteja ligada ao tempo histórico, mesmo quando se refere ao futuro. Na escatologia, Deus está apontando para a continuação da história, e não negando-a, tampouco tirando dela a Igreja. Quando, no fim dos tempos, a Nova Jerusalém desce, o texto afirma que Deus vem aos homens: então, ele será o Deus deles e eles, o seu povo. As Escrituras dizem que não haverá mais noite, porque Deus será a luz; nem haverá mais mar, porque cessarão todas as divisões entre os homens. Se não vivêssemos a história, ou se não experimentássemos a alternância entre dia e noite, aquela palavra não faria qualquer sentido para nós. Dizer “não haverá mais noite” nos remete para onde? Ora, remete-nos à história. Portanto, não há como Deus nos falar fora dela. Um Deus que não aparece na história; que não está envolvido com ela; que não tem nada a dizer sobre ela ou que não fala a partir da história, não nos serve. E por quê? Porque somos seres dependentes, o que significa que não conseguimos viver fora da história. Estamos presos a ela, como a alma o está ao corpo. A um ser humano não é possível se ver para além da história, que tem conteúdo e, necessariamente, forma.

Somos seres dependentes, parte do que movimenta a história. Esse é o primeiro pressuposto sobre o qual um discurso pastoral da fé, a partir da Missão Integral de Deus, deve se assentar. Portanto, tudo que nos afeta o faz a partir de nossa dependência. Se algo não nos afeta em nossa dependência, então não nos afeta em coisa alguma. É a partir dessa constatação que podemos falar de um discurso pastoral da fé para o dia a dia. Neste cenário pós-moderno, a Missão Integral surge como resposta bíblica e profética aos anseios humanos. Está inserida na práxisda teologia, isto é, reflexões teológicas sobre a ação da Igreja, como propagadora do Evangelho, no cotidiano da sociedade em que está incrustada. Se o evangelista chega no lugar da evangelização e encontra, no caminho, uma criança brincando no esgoto ao ar livre e bate à sua porta para falar aos seus pais, terá duas opções. Ele anunciará o poder transformador de Jesus de maneira conceitual – sem, contudo, oferecer socorro para que a família saia da miséria – ou lhe trará as boas novas da salvação que podem tirar aquelas almas do inferno, assim como tirar o inferno delas, e fará alguma diferença para a realidade daquela criança, naquela circunstância. Isso deriva da ênfase sobre a prática da Igreja voltada para o cotidiano, parte da proposição do professor René Padilla, um dos pioneiros na reflexão do tema junto com os outros teólogos nas décadas de 1950 e de 60, e que foram apresentadas nos Clades, realizados  em Bogotá, na Colômbia (1969), Huampani, no Peru, em 1979, e, por duas ocasiões – 1992 e 2000 – na capital equatoriana, Quito.

A Missão Integral diz que a pessoa será abençoada pela presença da Igreja na sua realidade, pois a Igreja não tolerará aquele estado de injustiça. Essa proposição se sustenta no declaração do Senhor Jesus, de que o Evangelho é do Reino (Mateus 24.14; Lucas 4.43); portanto, tendo como conteúdo as boas notícias da chegada de uma nova ordem mundial, antecipada pelo profeta Daniel no capítulo 2 de seu livro e manifesta pela Igreja. Porém, só será implantada na volta visível e triunfal do Cristo. Daí, há pecado pessoal e pecado estrutural. E, para pecadores que incorrem em uma só ou nas duas formas de transgressão, a Igreja propõe arrependimento. E só será possível participar dessa nova ordem pelo novo nascimento, que é sempre pessoal. Porém, graças às boas obras, que são a luminosidade da Igreja, a sociedade, em geral, será beneficiada, e levada a dar graças a Deus, conforme Mateus 5.16.

IGREJA NO COTIDIANO

O chamado Pacto de Lausanne, tido, equivocadamente, como o nascedouro da noção de Missão Integral, é fruto do Congresso Mundial de Evangelização realizado, em 1974, na cidade de Lausanne, na Suíça. Protagonizado pelo teólogo anglicano John Stott, já falecido, o encontro promoveu o encontro entre a teologia dos irmãos do Norte com a contribuição missiológica da reflexão teológica latino-americana e as contribuições africanas e asiáticas. O resultado deste inusitado e bendito amálgama foi sintetizado na frase: "O Evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens”, onde a concepção de “Evangelho todo” é compreendido como o poder de Deus para a salvação de todo o que crê, assim como o poder de Deus para interferir na estrutura da sociedade e dar sobrevida à humanidade, pela promoção da justiça – onde "o homem todo"é a compreensão do ser humano como ser complexo, com potencial cognoscente, religioso, fabril, econômico, social, político, comunitário, lúdico, estético e ético, que a tudo afeta e por tudo é afetado e que, alcançado pelas boas notícias do Reino, começa a mostrar os sinais da presença desse Reino, que se manifestam nele, e em tudo o que o afeta e por ele é afetado.

Já a proposição "todos os homens" compreende a totalidade das etnias humanas, que devem ser alcançadas pelo anúncio do Evangelho do Reino de Deus, tanto no âmbito pessoal-familiar como no âmbito da organização sócio-política, e que serão julgadas por suas práticas no trato do ser humano, frente a forma como se organizaram, e construíram os relacionamentos internacionais e intersociais (Mateus 25.31-46). A Missão Integral é ortodoxa, sustentando os paradigmas histórico-bíblicos da fé protestante, porém, ampliando a compreensão missiológica da Igreja como agência da Missio Dei, uma vez que toda a iniciativa é do Altíssimo Trino Deus.

A Missão Integral faz exegese histórico-gramatical; sua hermenêutica parte da sacralidade, inerrância e infalibilidade da Bíblia, na busca pelo mais próximo possível do sentido original, porém, no afã de aplicá-lo da forma mais compreensível, relevante e provocadora de transformação ao tempo contemporâneo. Por isso, sua abordagem sobre os fatos serve-se da interdisciplinariedade, uma vez que o que chamamos de realidade demanda muitos e distintos observadores para poder ser proposta como tal. E procuramos discerni-la para entender as perguntas a que devemos responder, e nunca para nortear ou compor com o kerigma, a proclamação.

O referencial basilar da Missão Integral é a doutrina da presença (Lucas 17.21) e da iminência do Reino de Deus, onde o Reino é compreendido como o governo do Ungido pela implantação da sua justificação e justiça. A Igreja, então, se vê, no cotidiano, como anunciadora da justificação e sinalizadora da presença e do princípio do Reino de Deus, pela busca por fazer manifesto e aplicado o conceito judaico-cristão de justiça. A priorização do pobre não é vista como uma opção, mas, como demanda do Cristo, que apresentou a pregação do Evangelho aos pobres como uma de suas credenciais messiânicas, conforme Mateus 11.5.

Ariovaldo Ramos é pastor, teólogo e conferencista

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Especial Fri, 27 May 2016 12:38:29 +0000
Medo infantil http://cristianismohoje.com.br/colunas/esther-carrenho/medo-infantil http://cristianismohoje.com.br/colunas/esther-carrenho/medo-infantil Medo infantil

Quando a criança não recebe a devida proteção e segurança em relação aos seus medos, pode desenvolver outros comportamentos ou até sintomas de alguma enfermidade.

O Filho de Deus fez questão de demonstrar amor e dar importância às crianças. Certa vez, declarou que ninguém poderia entrar no Reino de seu Pai se não se fizesse como uma criança. Em outro momento de sua passagem física por este mundo, repreendeu seriamente aqueles que queriam afastar os pequenos de si. Todos os que somos pais, avós, tios e “tios” de coração sabemos o quão maravilhosas são as crianças. E cada um de nós que ainda se lembra ou carrega algo da própria infância sabe que um dos sentimentos mais comuns de uma criança é o medo. Medo de escuro, de barulho, de fantasmas, de ser deixado sozinho e até mesmo de um simples bichinho – qualquer criança se amedronta diante de coisas e situações mais simples do dia a dia.

Sentir medo é natural e normal para todos os seres humanos. É um dos sentimentos reconhecidos como inatos, o que significa que nascemos prontos para reagir sentindo medo diante de qualquer situação de ameaça ou perigo, real ou imaginário, que provoque insegurança. Bebês podem sentir medo de outras pessoas diferentes daquelas com as quais estão acostumadas. À medida que vão crescendo, as crianças podem sentir medo de ruídos; o som de um liquidificador ou o estampido de fogos de artifício, por exemplo, pode apavorá-las. Depois dos terceiro ano, os pequenos podem apresentar medo de animais aos quais não estão acostumados, como vacas ou cavalos, e de figuras que lhes pareçam estranhas, como palhaços. Outros medos vão surgindo com o passar dos anos. Muitas crianças chegam a ter muito medo da morte, em geral por volta dos seis, sete anos.

Se o medo é normal nesta fase da vida, ajudando a construir traços psicológicos e estruturas mentais fundamentais à existência humana, a falta de compreensão deste processo por parte de pais, cuidadores e educadores pode acarretar sérios problemas. Quando a criança não recebe a devida proteção e segurança em relação aos seus medos, pode desenvolver outros comportamentos ou até sintomas de alguma enfermidade. Pior ainda é quando o adulto critica ou mesmo ridiculariza a criança, chamando-a de medrosa ou covarde. Brincadeiras e piadas sobre o medo infantil podem aumentar ainda mais a insegurança da criança e bloquear a expressão de seus sentimentos. Ela recebe a falta de compreensão do adulto como se fosse algo de errado nela e se vê como inadequada. Outra “solução” encontrada por muitos pais – obrigar a crianças a enfrentar o lugar, situação ou coisa que lhe causa medo – pode desencadear até mesmo fobias.

A vida é cheia de situações de risco e perigo, e elas são ainda mais agudas para quem não pode, ainda, discernir sua verdadeira dimensão. Algumas crianças têm medo até da própria sombra, antes de perceber que aquela figura escura que a persegue não representa qualquer perigo. Cabe, portanto, aos responsáveis pela criança lidar de forma adequada com os medos sem fundamento das crianças e ensiná-las a ter cuidado com coisas e situações que realmente podem ser perigosas, como subir escadas, debruçar-se nas janelas e atravessar as ruas. O ato singelo de segurar a mão da criança já lhe confere grande sensação de segurança e confiança.

Lembrar que cada um de nós também sentiu medo das coisas mais simples durante a infância pode nos ajudar muito na compreensão do medo infantil apresentado pelo filho ou pela criança que está sob nossos cuidados. Nosso Pai também lida com nossas inseguranças e não nos recrimina quando nossa condição humana nos leva a sentir medo. Moisés, diante do chamado divino, ficou apavorado. Deus, porém, souber conduzir a situação de modo que o libertador dos hebreus pudesse contornar suas dificuldades e cumprir sua missão. Os discípulos de Jesus chegaram a gritar de pavor quando o viram caminhando sobre as águas, tomando-o como um fantasma.  Aproximando-se deles, o Mestre se deu a conhecer e ainda tranquilizou o coração daqueles homens com a certeza de sua presença: “Sou eu; não temam”. Se nós, adultos, somos tratados por Deus, nosso Pai, com compreensão e cuidado em relação aos medos que sentimos, por que não faríamos o mesmo com as crianças, que tanto dependem de nós e do nosso cuidado amoroso?

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Esther Carrenho Mon, 15 Feb 2016 00:09:32 +0000
Pastores e motoristas de ônibus http://cristianismohoje.com.br/colunas/valdemar-figueredo/pastores-e-motoristas http://cristianismohoje.com.br/colunas/valdemar-figueredo/pastores-e-motoristas Pastores e motoristas de ônibus

Motoristas de ônibus e pastores evangélicos sentem-se prisioneiros da empresa que lhes paga o salário ou da igreja que os mantêm. Estão infelizes, mas são dependentes daquilo que a comunidade lhe atribui como recompensa.

Motoristas de ônibus são muito sacrificados. Além do estresse diário no trânsito, da violência dentro e fora dos coletivos e das longas jornadas de trabalho, eles não se beneficiam, ao contrário de outras categorias profissionais, das benesses da tecnologia. Ao contrário – estão cada vez mais assoberbados. Já se tornou comum que tenham de dirigir e, ao mesmo tempo, cobrar as passagens e dar o troco. Isso, claro, além de sofrer com a má educação de muitos passageiros e com salários baixíssimos.

Um olho na porta da frente, outro na de trás. Gente fazendo sinal para entrar e gente querendo descer. Pensando bem, há algo de semelhante entre o labor dos motoristas de ônibus e o dos pastores. Ambos, cada qual à sua maneira, monitoram o ir e vir alheio; ambos são condutores de grupos, e convivem com os fluxos e refluxos de pessoas. O detalhe é que esses condutores não são os únicos responsáveis por aquilo que dirigem; mas aqueles que estão nos bancos, sejam do ônibus ou da igreja, exigem bons serviços.

O motorista é o único dentro do ônibus que tem obrigação de estar ali, e a ele cabe a mobilidade alheia. Então, que o faça em total segurança, sem jamais desviar do trajeto. Os itinerários pré-estabelecidos têm de ser seguidos.  Proibido é sair do caminho. Já a igreja não gosta de chamar o seu pastor de funcionário: prefere entendê-lo na lógica da vocação. Alguém duvida que, hoje, esses seres humanos estão sobrecarregados entre cuidar de pessoas e gerir empreendimentos eclesiásticos? Na vida cristã, como caminho óbvio, o itinerário é reto, sempre para frente. O público pagante tem o mapa na cabeça, e ai do líder que ousar arejar a viagem do grupo.

O motorista vai trabalhar com sol ou chuva. A temperatura do coletivo nada tem a ver com suas competências. Porém, as janelas que não abrem,o ar condicionado que não gela, o teto escaldante pela energia do sol e o vapor subindo do asfalto interferem em seu trabalho. É como numa panela de pressão, só que sem a válvula de escape. Os pastores, por sua vez, suportam as mesmas condições adversas que atingem as suas ovelhas. Tensões são crescentes quando o condutor não os transporta a águas tranquilas e pastos verdes.

Motoristas são explorados e, ultimamente, solitários. A figura cúmplice do cobrador, para bater um papo, comentar futebol ou chorar as mazelas da vida, está em extinção. Afinal, quase todo mundo tem cartão de passe automático. Horas diárias de trabalho duro sem ter com quem contar. E o pastor? Sim, ele fala na igreja todos os domingos; mas, quem o ouve de fato?

Em congressos para pastores, quando deveria existir espaço para abrir o coração, a pastorada é submetida a ter que ouvir celebridades que são especialistas em obviedades, que apontam para metas e programas eclesiásticos e parecem saber tudo do ofício, mas não pastoreiam uma comunidade. A situação já é alarmante há muito tempo. As condições desumanas de trabalho não são atenuadas com fraseados que remetem ao divino. Há uma epidemia de pastores doentes física, espiritual e emocionalmente, por conta das condições insalubres das suas atividades. Pregam sobre algo que não têm: qualidade de vida. Falam sobre família saudável, mas a sua tem de cumprir o papel de modelo da comunidade. Os filhos ouvem a queixa da igreja em relação aos seus pais ou convivem com o adoecimento de projeções que beiram a canonização. De uma forma ou de outra, o processo é de despersonalização, desumanização e cansaço.

Motoristas de ônibus e pastores evangélicos são duas categorias que não gozam de tanta simpatia da população. Uns são chamados de incompetentes, despreparados; outros, de desonestos, aproveitadores. Em um e outro caso, sentem-se prisioneiros da empresa que lhes paga o salário ou da igreja que os mantêm. Estão infelizes, mas dependem emocional e financeiramente daquilo que a comunidade lhes atribui como recompensa. A dependência é tão grande que alguns, quando afastados das atividades, sofrem surtos de abstinência.

E quem disse que bons pastores têm que gastar a vida nisso? A comunidade evangélica estranha o termo “mística”. Mas é exatamente a mística que haverá de nos salvar de nós mesmos. O modelo de pastores multiatarefados, que precisam fazer o empreendimento crescer, leva a neuroses, e não a Deus. Prefira o caminho alternativo, ainda que a viagem demore mais. E quem se importa com as horas quando está onde quer, com quem ama e compartilhando experiências com Deus?

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Valdemar Figueredo Sun, 14 Feb 2016 23:56:27 +0000
Em paz com a consciência http://cristianismohoje.com.br/colunas/nelson-bomilcar/paz-com-a-consciencia http://cristianismohoje.com.br/colunas/nelson-bomilcar/paz-com-a-consciencia Em paz com a consciência

Os reformadores compreendiam que Deus se revelou a todo homem e para toda cultura, através de um Evangelho que tem linguagem e abrangência universais e que gera uma criatividade que não se esgota em possibilidades.

Não se muda a mentalidade de um povo e de uma nação da noite para o dia. Da mesma forma, não se pode transformar o pensamento de uma pessoa de uma hora para a outra. Pessoas, povos e nações se desenvolvem a partir das heranças recebidas. É impossível não associar a cosmovisão da vida com influências que recebemos em nossas famílias e nos contextos onde fomos educados e criados. Hoje, no Ocidente, vivemos e pensamos a partir das influências do humanismo, do renascentismo, do iluminismo e do impressionismo. O racionalismo, o secularismo e o liberalismo também construíram nossa civilização, da mesma fora como o fizeram o catolicismo, o protestantismo e, mais recentemente, com força, o ateísmo,

De todos esses movimentos, herdamos nossa formação cultural, empírica, social e moral. Santo Agostinho foi um dos que sempre entenderam a fé e a cultura caminhando juntas. Para ele e muitos outros pensadores, as duas coisas não poderiam ser olhadas de forma distante da realidade e somente pelo viés da mística. Os reformadores – Lutero, Calvino, Charles e  John Wesley, por exemplo –, procuravam não se distanciar do jeito de pensar e viver de um grupo social ou povo em suas lutas por uma vida digna e igualmente desfrutadora na existência humana. Eles compreendiam que Deus se revelou a todo homem e para toda cultura, através de um Evangelho que tem linguagem e abrangência universais e que gera uma criatividade que não se esgota em possibilidades.

O movimento da Reforma reafirmou que a graça e a natureza têm a mesma importância e relevância, e que devem ser consideradas de maneira integrada, em um mesmo plano de valoração. Portanto, a fé considera que a cultura pode ser distorcida pela queda do homem; mas, ao mesmo tempo, no movimento da redenção na história, pode ser redimida e resgatada no seu melhor onde se deteriorou. Esse é um convite para todos nós, cristãos, a fazermos arte e valorizarmos a cultura. É por isso que Don Richardson, missiólogo conhecido, encoraja-nos a estarmos sempre buscando encontrar em cada cultura e jeito de viver aquilo que traduz a mentalidade de cada povo, etnia e nação. É caminho libertador que nos faz admirar, transitar e usufruir de toda manifestação de arte e expressões que nunca se esgotam em repercutir o belo. O ser humano, independentemente de sua fé, é dotado da capacidade criativa que recebeu do doador da vida.

No ambiente evangélico protestante, vez por outra nos damos conta de como podemos nos perder no caminho de olhar com respeito e abordar temas interessantes e pertinentes que repercutem nas áreas da fé e da espiritualidade. Muitas delas que norteiam uma vivência de forma mais abrangente ou mais limitada. Cristãos nem sempre buscaram maneiras possíveis para responder às questões que envolvem a cultura e fé com uma prática cotidiana de forma mais coerente com aquilo que creem e professam. Porém, quando o fizeram, enriqueceram a época em que viveram e influenciaram sua geração.

A cultura sempre foi resultado de toda e qualquer atividade criativa do ser humano, desenvolvida dentro das leis e estruturas dadas para a vida em comum por um ser moral, ético, criativo e de recursos infinitos, como nos revela seu poder em sua Criação. Cultura é um sistema integrado de valores, crenças, ritos e instituições que resulta num modo de viver e pensar. Esse sistema busca expressar, com muitas vertentes, sua mentalidade, e influencia a dinâmica da vida, da fé e da espiritualidade. É o místico e o infinito que se encarnam e tomam forma cotidiana e finita nas coisas simples da vida.

Precisamos ampliar e mudar uma mentalidade paralisante que ainda resiste neste início de século 21 nas igrejas. Precisamos transitar nos espaços culturais e de arte que estão à nossa disposição. Precisamos apreciar expressões de arte como a literatura, a poesia, o cinema, o teatro, a música, a dança e outras manifestações na expectativa singela de encontrar o significado pelo qual foram concebidas e delas usufruir o que é belo, inspirador, revelador. Mais do que isso, precisamos criar e promover a arte e a cultura em todos os segmentos e contextos onde estejamos. Se multiplicarmos isso, teremos uma trajetória mais contemplativa e estaremos mais em paz com nossa consciência – cristã, diga-se de passagem.

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Nelson Bomilcar Sun, 14 Feb 2016 23:51:33 +0000
A fé floresce no Caribe http://cristianismohoje.com.br/materias/internacional/a-fe-no-caribe http://cristianismohoje.com.br/materias/internacional/a-fe-no-caribe A fé floresce no Caribe

Abertura nas relações entre Estados Unidos e Cuba inaugura uma nova fase para a Igreja da ilha.

Em uma noite de quinta-feira, uma multidão de jovens cubanos se reúne no calçadão de Havana, perto dos fortes históricos que guardam o porto de Cuba. Ao lado, uma dúzia de carros alegóricos começa a tocar salsa, ritmo típico do Caribe. O grupo não gosta; com a luz do farol iluminando a reunião, rapazes e moças terminam de cantar um louvor que fala sobre o desejo de que suas vidas sejam como “perfume aos pés de Cristo”. Eles, então, começam a declarar em alta voz: “Yo soy Cristiano / Para que tú lo sepas /No me falta nada / Mi vida está completa” (“Saiba, então, que eu sou cristão. Nada me falta. Minha vida está completa”). Em seguida, um pastor faz a multidão virar de frente para Habana Vieja, o centro de turismo da capital, do outro lado da rua. Eles levantam seus celulares para o alto com a lanterna acesa e gritam: “Eu sou luz em meio à escuridão”.

A recente reinauguração da embaixada dos Estados Unidos na ilha de Fidel Castro foi um marco histórico, político e, também, espiritual. Após mais de meio século de hostilidades entre a nação caribenha e a superpotência global, la apertura, a nova abertura econômica e diplomática entre Cuba e EUA, inaugura um novo tempo. O ano de 2015 ficará marcado na geopolítica pelo encontro entre o presidente americano Barack Obama e o líder cubano Raúl Castro, irmão do mítico Fidel, que comandou a revolução comunista de 1959 que deixou os Estados Unidos de cabelos em pé no auge da Guerra Fria. O fim da inimizade e a flexibilização das viagens e da comunicação entre os dois lados foram apenas o começo, dizem os analistas. Embora a reversão total do embargo comercial imposto a Cuba dependa da aprovação do Congresso americano, muitos cubanos esperam que a ilha não permaneça congelada no tempo.

Cristãos de ambos os lados das águas caribenhas que separam Cuba da Flórida se surpreenderam com a abertura. Certamente, muito do legado da Revolução Cubana permanecerá. Porém, mesmo antes de a bandeira americana ser levantada em Havana pela primeira vez, depois de 54 anos, as estrelas e listras presentes nela podiam ser vistas nas camisetas dos homens e nas calças das mulheres por toda a capital.

Em uma grande avenida comercial da Havana, uma multidão se reúne à meia-noite. Não se trata de uma fila para a Cafeteria Vera, lojinha azul e rosa de esquina que tem mais mesas para clientes do que mercadorias para venda. A multidão está empoleirada nos bancos, muretas e meio-fio. Todos estão com o rosto iluminado, e não é pelos célebres charutos cubanos. O que brilha são as telas de smartphones, tablets e laptops. Cerca de 40 hotspots públicos chegaram às principais cidades cubanas em julho. É possível comprar um cartão de uma hora de acesso ao wi-fi por 3 pesos (cerca de US$ 3, ou 12 reais). Muitos usuários navegam pelo facebook, enquanto outros usam o vídeochat. “Eu nunca vi as pessoas tão felizes na rua”, conta um rapaz de 29 anos, vendedor de cartões, que ostenta uma camisa com a bandeira dos EUA, um colar da Virgem de Guadalupe e uma tatuagem no antebraço. “Isso é parte do milagre que estamos vivendo”, diz a esposa de um pastor. Hoje, os turistas que forem tirar foto do porto de Havana no domingo de manhã encontrarão algo inimaginável há pouquíssimo tempo: um culto evangélico realizado com alto-falantes e até danças coreografadas.

TEMOR DO CONSUMISMO

A Alcance Vitória é uma das igrejas que estão aproveitando todas as novas oportunidades. Ela trabalha com jovens membros de gangues, usuários de drogas e pessoas envolvidas em prostituição. Antes, o ministério era feito meio em segredo, à noite, por evangelistas que agiam com toda discrição. Agora, a igreja se reúne nas manhãs de domingo em um dos lugares mais públicos de Havana: La Punta, onde o Malecón, famosa orla da cidade, se junta ao porto. O pastor Abel Pérez Hernández conta que a sua congregação de treze anos possui agora 500 membros e quarenta e duas células que se reúnem semanalmente. Ao lado dos canhões coloniais e de coloridos guarda-sóis, os creyentes cantam louvores em ritmo de salsa e reggae, enquanto cerca de dez jovens dançam em frente ao paredão pichado. Uma equipe missionária brasileira participa da celebração. É a quarta visita do grupo ao país. Com a desvalorização do real, a despesa mais que dobrou, mas Filipe Santos, diretor missionário de uma igreja batista de São Paulo, não reclama: “Isso mostra como é importante para nós estarmos juntos”, diz, enquanto canta e bate palmas.

O sentimento geral da Igreja cubana baseia-se em três expectativas: a esperança de uma vida melhor, econômica e politicamente; a preocupação com a inevitável avalanche de novas ideologias e consumismo; e a certeza de que tanto os cristãos americanos quanto os cubanos não estão preparados para as rápidas mudanças em curso. Pelo lado mais pessimista, os líderes cristãos se perguntam se os visitantes norte-americanos podem aniquilar a cultura cubana com o seu materialismo e nominalismo. “A nossa mentalidade ainda é muito marxista, mesmo depois de termos sido impedidos de consumir durante 50 anos”, conta Alfredo Forhans Hernández, diretor do campus Holguín do Seminário Evangélico New Pines. “Agora, os EUA podem tornar o nosso consumo uma realidade. Nós não estamos preparados para isso”.

Os cristãos de Cuba têm prosperado, a despeito da pobreza e da política restritiva que imperou na ilha por tanto tempo. Eles se orgulham de dizer que o seu improvável avivamento, que já dura décadas, só perde para o da China. “É incrível. As pessoas vêm por conta própria à procura de Deus”, conta um líder batista local que, por uma precaução justificável, ainda prefere não revelar o nome. No entanto, a abertura levanta uma preocupação: o avivamento continuará sendo valorizado depois que os cubanos adquirirem recursos? “O grande crescimento da igreja, mesmo com os nossos recursos limitados, não será mais relevante”, comenta o pastor.

“Há muitos pássaros que desejam pousar em Cuba”, compara o reitor do Seminário Teológico Batista Oriental em Santiago de Cuba, Eduardo González del Río. A metáfora é uma referência às pessoas que chegam de fora trazendo suas doutrinas e costumes religiosos. “Cuba esteve fechada e, agora, suas portas estão se abrindo”, completa Yaniel Marrero Báez, presidente da Faculdade Evangélica de Estudos Teológicos, em Placetas. “No passado, havia tão poucas oportunidades para os visitantes, que nós acolhíamos todos. Agora, porém, a Igreja cubana terá opções para escolher.”

Um sinal dos novos tempos é ver os cristãos cubanos circulando em seus antigos carros ouvindo CDs do pastor guatemalteco Cash Luna e de outros pregadores do Evangelho da prosperidade. “É uma guerra de mídia”, diz Gonzaléz. “Infelizmente, não temos bons cristãos fazendo o mesmo”. O governo cubano ainda restringe publicações cristãs e acesso à mídia, mas cada um se vira como pode – inclusive, adquirindo literatura e CDs no mercado pirata ou comprando pela internet, que já não é tão vigiada.

COLABORAÇÃO X IMPOSIÇÃO

De maneira geral, os pastores cubanos estão ansiosos para colaborar com mais igrejas americanas. Eles, porém, querem ser respeitados, apesar das disparidades em relação a tamanho e riqueza. “O problema é quando os estrangeiros vêm nos dizer o que precisamos fazer. Nós estamos aqui há muitos anos, espalhamos a Palavra em meio a muitas dificuldades e fomos capazes de obter sucesso”, conta um pastor batista. “Nós amamos a ideia de colaboração, mas não de imposição”.

A ajuda, claro, é bem vinda, ainda mais no que se refere à distribuição de um produto cuja circulação era restrita: a Bíblia Sagrada. Em apenas um mês, a International Missions Board (IMB), maior agência missionária dos Estados Unidos, enviou 83 mil exemplares em espanhol para Cuba. As Sociedades Bíblicas Unidas planejam, para os próximos anos, distribuir levar 1 milhão de bíblias no país. Há relatos de que existem, extraoficialmente, cerca de 1,2 mil igrejas evangélicas em Cuba, já que o regime dos irmãos Castro – Fidel, que afastou-se do poder em 2008 e foi substituído por Raúl – proibia a abertura de templos “não registrados”. Para Enoel Gutiérrez Echevarría, presidente do Seminário Evangélico Metodista de em Havana, o momento é de reflexão cautelosa. “Nós estamos em um contexto especial. Não podemos copiar o que o resto do mundo está fazendo”, diz. “É claro que não somos perfeitos. Porém, somos especialistas em Cuba. A Igreja nacional é um exemplo de avivamento para o mundo. Aquilo que os outros têm a oferecer não deve interromper o que estamos fazendo”, sentencia.

González está feliz com a parceria entre sua igreja e um ministério de Dallas, nos EUA, cujo foco está no treinamento de liderança, e não em financiamento. “Se eles nos dessem dinheiro, as pessoas atribuiriam o sucesso de nossa igreja ao financiamento americano, e não a Deus”, ele diz. “É importante que os americanos não representem apenas notas de dólares para nós”. É verdade que, em Cuba, um médico pode ganhar três vezes mais trabalhando como ajudante de garçom do que em sua profissão e produtos básicos, como carne, açúcar e até papel higiênico, são difíceis de adquirir. “Mesmo precisando de ajuda financeira, a coisa de que mais necessitamos é aprender a trabalhar em grupo”, diz um líder cristão. “Muitos pastores são vistos como chefes e fazem tudo. Existem poucos conselhos”. Uma das razões para isso é a cultura de vigilância do regime castrista. “Nós não sabemos em quem podemos confiar nos grupos. Qual das pessoas que se sentam conosco nos encontros de pastores pode pertencer ao outro lado?”

No entanto, os cristãos cubanos nunca se sentiram mais corajosos. Eduardo E. Pérez Ramos usa o seu próspero estúdio de fotografia para conectar as igrejas de Cuba. Ele tenta captar e divulgar eventos que mostram uma Igreja forte, como aconteceu em uma recente reunião na cidade de Holguín, onde milhares de cristãos se ajuntaram nas ruas. A sua foto preferida, intitulada Uma ilha, um coração, capta o encontro nacional da Liga Evangélica de Cuba em um acampamento metodista em Santa Clara. O grupo forma o modelo exato da ilha e cada pessoa representa a sua província de origem.

No entanto, há bastante coisa para se comemorar. Os evangélicos têm feito grandes progressos na aprendizagem à distância. Um dos exemplos são os cursos mantidos pelo Centro de Treinamento Cencap, programa iniciado por Los Pinos Nuevos, uma denominação indígena. Agora, em seu quinto ano, o projeto já treinou mais de 51 mil pastores e líderes de 21 denominações. O foco do treinamento mudou recentemente: de como os pastores podem administrar melhor as suas congregações para como as igrejas podem servir melhor às suas comunidades. A prioridade agora é ajudar a alimentar crianças e idosos carentes, e o governo está simpático à ideia de firmar parcerias com os grupos cristãos. “Podemos compartilhar o Evangelho sem pregar”, explica um jovem cubano enquanto espera por três carregamentos de arroz. Ele e várias pessoas formam uma fila, deslocando caixas de um caminhão de lixo para dentro de uma igreja, tarefa que só termina em plena madrugada.

A capela do Seminário Batista Ocidental, em Havana, dispõe de um mapa de madeira do mundo. Várias setas saem de Cuba para todas as direções. A tendência é interpretá-las como a emigração dos cubanos; elas, porém, indicam um forte desejo missionário. Cuba já foi temida por ser uma possível disseminadora da revolução comunista no Ocidente. Nos anos 1960, por exemplo, a ilha quase foi o epicentro de uma guerra nuclear entre Estados Unidos e a então União Soviética, patrocinadora das aventuras de Fidel Castro. Agora, quem diria, o país está prestes a exportar o Cristianismo. Em 2015, os batistas enviaram os primeiros missionários cubanos em tempo integral em 54 anos. Primeiro, um casal de obreiros seguiu para o Equador. O próximo alvo é a África: há equipes se preparando para trabalhar no Senegal e na Guiné Equatorial. O objetivo final é o Oriente Médio e a Janela 10/40, a imensa região imaginária que abrange boa parte do mundo que não conhece Jesus.

Como as restrições governamentais ao turismo impediram que as igrejas enviassem missionários, elas criaram métodos eficientes de anunciar a mensagem de Cristo. Um deles são as missões médicas, aproveitando a tradição da medicina cubana. “Agora as portas se abriram”, diz um líder batista. “E nós estamos muitos animados por podermos realizar livremente o nosso sonho”. O dinheiro, no entanto, continua sendo uma barreira. “Nós não temos os recursos financeiros para enviar as pessoas, mas temos os recursos humanos”, diz o reitor Eduardo González del Río. “Nós cremos que Deus está preparando algo grande para nós”, entusiasma-se.

O programa missionário batista Cubans to the Nations possui 250 pessoas em treinamento, segundo o diretor Karell Lescaille. “Nós queremos aprender como os outros países fizeram suas missões mundiais e colocar o nosso tempero cubano”, diz. Numa inversão da lógica de Davi e Golias, agora é a pequena ilha que quer ajudar o gigante do Norte. “Talvez, Cuba possa levar um avivamento para os EUA”, continua González. “Os americanos trouxeram o protestantismo para nós; portanto temos uma dívida com eles”. O que os líderes cristãos e a Igreja cubana querem, a despeito da euforia geral com a abertura, é preparar Cuba e seu povo para as mudanças que há de vir – e não deixar que elas contaminem sua genuína fé morena, que sobreviveu ao comunismo e está pronta para dar frutos para o mundo.

(Tradução: Julia Ramalho)

 

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Internacional Sun, 14 Feb 2016 22:38:10 +0000
O caminho da restauração http://cristianismohoje.com.br/artigos/especial/o-caminho-da-restauracao http://cristianismohoje.com.br/artigos/especial/o-caminho-da-restauracao O caminho da restauração

Uma queda não deve, necessariamente, ser o fim da linha para o ministério pastoral. A falha de um companheiro de caminhada é uma falha nossa, já que somos do mesmo corpo.

Minha vida tem sido dedicada, entre outras coisas, a promover um ministério pastoral saudável. Através do Mapi e outras instituições, com o apoio de muitos homens e mulheres chamados pelo Senhor com o mesmo propósito, temos contribuído para oferecer à liderança evangélica brasileira ferramentas espirituais capazes não apenas de edificar a vida de outros pastores e pastoras como, também, promover sua restauração pessoal e ministerial, quando necessário. Isso inclui formas preventivas para evitar uma queda ou crise grande. Junto com isso, desenvolvemos estratégias para ajudar alguém que está precisando de um processo profundo de restauração. Em meu envolvimento com pastores, sempre ouço colegas – homens e mulheres – relatando que eles ou seus cônjuges tiveram profundas quedas morais, seja em adultério, seja em homossexualismo. Há também problemas de ordem pessoal, emocional, financeira, motivacional. Isso também acontece com certa frequência com líderes na igreja local e membros da igreja. Tais problemas se tornaram tão suficientemente comuns que precisamos trilhar o caminho das pedras para saber como ajudá-los na restauração.

Tal processo não se limita, é claro, a problemas de natureza moral. Com adaptações, ele se aplica a líderes que caem no esgotamento, passam por crises emocionais e dramas conjugais, mesmo sem haver nenhuma infidelidade. A Igreja de Jesus Cristo deve ser um oásis, um lugar de refúgio, um contexto maravilhoso de restauração. Ela é uma comunidade terapêutica. Ao mesmo tempo, teremos que trabalhar bastante em cima deste ideal, já que essa mesma igreja exige que seus líderes sejam modelos e infalíveis. Isso complica a situação de quem se encontra em conflitos e busca ajuda. Na maioria das vezes, porém, o processo de restauração não é bem entendido.

O ponto de partida, claro, é o arrependimento, sem o qual a restauração não tem chance. O caminho da restauração é comprido e requer alta dose de motivação e perseverança. Sem isso, a seriedade da proposta não terá chance. A chave será se a pessoa realmente experimentou a tristeza segundo Deus ou apenas tristeza segundo o mundo, conforme II Coríntios 7. Isso é fundamental. Se houver um verdadeiro quebrantamento e arrependimento, então haverá profunda motivação para caminhar na restauração.  Paulo descreve isso quando diz: “Vejam o que esta tristeza segundo Deus produziu em vocês: que dedicação, que desculpas, que indignação, que temor, que saudade, que preocupação, que desejo de ver a justiça feita! Em tudo vocês se mostraram inocentes a esse respeito”. Se não houver verdadeiro arrependimento e quebrantamento, o caminho da restauração precisa passar pela disciplina da igreja até que isso aconteça.

VÍNCULO ESPIRITUAL

Outro aspecto essencial para a reabilitação do pastor que falha é o apoio forte da liderança espiritual. É preciso se estabelecer um vínculo a nível emocional com a pessoa em crise, um encontro verdadeiro e profundo entre as pessoas. Ficar firme na Palavra não adiantará muito sem um amor que constrói a confiança no facilitador, para depois lhe dar a autoridade espiritual de intervir na vida do caído. Sem a delegação da autoridade de mexer na vida, nas emoções, nos pecados, nos valores, nenhuma pregação, confronto ou exortação surtem efeitos. Se a liderança ou um conselheiro tratar o assunto a nível meramente cognitivo, sem se conectar às instâncias emocionais, haverá um absoluto desencontro. Porém, uma vez realizado o vínculo (encontro, confiança, delegação de autoridade espiritual), o dogma teológico passa a ter efeito.

Confissão e pedido de perdão é outra etapa imprescindível. Tais atitudes têm que ser genuínas e profundas, com limpeza e honestidade, como fruto de um mover do Espírito. O ministro do Evangelho precisa reconhecer a diferença entre graça barata (que trata o pecado de forma leve ou superficial) e aquela que o trata de forma séria e profunda. O círculo da confissão precisa ser o círculo da transgressão – logo, o líder que transgrediu deve caminhar em marcha à ré no processo de confissão. Ao mesmo tempo, o caminho do conserto passa pelo reconhecimento das brechas que se abriram na vida do líder. A queda foi simples, repentina, resultado de uma debilidade ou tentação momentânea, ou resultado de algo mais sistêmico, uma doença emocional e espiritual? Cinco passagens bíblicas falam diretamente da ação de Satanás ao se envolver na vida dos crentes – aliás, seis, se incluirmos a tentação de Jesus, relatada nos evangelhos.

Quando isso acontece, precisa ser combatido e destruído com armas espirituais, e não apenas humanas. Muitas vezes, custa caro descobrir que há áreas de nossa vida que não caminham debaixo do senhorio de Jesus Cristo: o orgulho, ou falta de submissão (Tiago 4.6-10 e I Coríntios 10.12); a ira, mencionada em Efésios 4.26; o medo e a ansiedade; a falta de perdão; e a ausência de um bom relacionamento conjugal e uma vida sexual sadia. Por último, jamais devemos duvidar de nossa identidade como filhos de Deus. Não podemos, como líderes, ignorar os propósitos de Satanás: roubar, matar e destruir, conforme João 10.10.

Por vezes, em nossa caminhada espiritual, confessamos nossos pecados e receber oração, no espírito de Tiago 5.16; porém, continuamos com os mesmos problemas. Nada é resolvido! Pode não ser exatamente um pecado, mas um erro ministerial ou um mal-entendido que precisa ser esclarecido. O que leva o pastor a transgredir é, com muita frequência, uma doença espiritual ou emocional, algo arraigado em seu ser. Aqui, entra a necessidade da submissão à autoridade constituída por Deus. Quantos pastores erram e permanecem no erro simplesmente porque não se veem na obrigação de prestar contas de seus atos não apenas ao Senhor, mas a um irmão de fé ou líder? Identificar um coordenador de restauração que seja experiente e que tenha discernimento e autoridade espiritual é algo que todo ministro do Evangelho deveria fazer. Humanamente falando, depois do esforço da própria pessoa em sua restauração, esse compartilhamento é a chave principal no processo. Sem a presença do outro no processo de restauração, há um grande risco de engano, inclusive a si mesmo.

SINAIS DO REINO

Um pastor em crise, esgotado ou doente, é como quem padece de um câncer espiritual e emocional. Ele precisa de múltiplas estruturas de reabilitação, como em um tratamento multidisciplinar. Nesse contexto, sete formas de relacionamento são o que uma pessoa em recuperação precisa: 1) Com Deus; 2) Consigo mesmo; 3) Com sua família; 4) Com um grupo pastoral; 5) Com uma equipe de ministério; 6) Com um mentor ou líder pastoral; e 7) Com bons amigos. Um pastor ou líder que caminha seriamente com esses sete relacionamentos terá uma proteção preventiva bem grande contra a queda ¬ ou, na pior das hipóteses, uma rede de apoio visando à sua plena recuperação. Afinal, o cair é do homem, mas o levantar é de Deus.

Uma vez que alguém reconhece seu pecado, saindo da negação ou justificação à luz de 1 João 1.6, 8, 10, existem três grandes passos para acertar de novo: arrepender-se, confessar e pedir perdão e restituir – e isso inclui abandonar o pecado, conforme Paulo exorta em Romanos 6.11-12, e a definição, de antemão, de consequências que a pessoa vai aceitar, se cair de novo. O caminho pode, muitas vezes, ser demorado; é preciso transformar crucificação em ressurreição. Onde o pecado abundou, o Senhor derrama sua graça superabundante. Não aquela graça barata, mas a real, que custou grande preço. Minha oração é possamos fornecer uma luz na escuridão de como caminhar na restauração de forma eficaz. Grandes líderes, pastores ou missionários próximos a mim ou a outros de minha equipe caíram feio nos últimos dez anos. Mais ou menos a metade deles optaram pelo caminho da restauração – ainda que nem sempre, desde o início. Outros recusaram a disciplina da denominação ou igreja. Exemplos como os de Gordon MacDonald, nos Estados Unidos, e Darci Dusilek, aqui no Brasil, nos oferecem a esperança de saber que a restauração pode ser real e genuína, até abrindo portas para um novo ministério mais autêntico.

Tanto o mundo como a própria Igreja precisam de sinais do Reino que mostram que há esperança para qualquer pecador. Este caminho, quando levado a sério, acaba tendo esse resultado. As pessoas se desmoronam com a queda moral de um pastor, líder ou até cristão comum – mas, também, se firmam e se alegram em perceber que existe verdadeira restauração. Como acostumamos dizer no Mapi, o erro que cometemos importa menos que o que fazemos depois para corrigi-lo. Quando alguém cai ou entra em crise profunda, precisa abraçar “o que vem depois”: o arrependimento, a confissão e a restituição. E a maior parte da restituição tem a ver com abraçar também o processo de restauração. A falha de um companheiro de caminhada é uma falha nossa, já que somos do mesmo corpo, o corpo de Cristo. Dessa forma, poderemos entrar na glória de compartilhar a missão de Jesus Cristo, quando declarou: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres, proclamar liberdade aos cativos, libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor (Lucas 4.18-19).

David Kornfield é pastor, mestre em Antropologia e tem doutorado em Educação Comparativa. Missionário de Servindo Pastores e Líderes (Sepal), ele coordena o Movimento de Apoio para Pastores e Líderes, o Mapi

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Especial Mon, 14 Dec 2015 11:20:56 +0000
O pastor ideal http://cristianismohoje.com.br/artigos/lideranca/pastor-ideal http://cristianismohoje.com.br/artigos/lideranca/pastor-ideal O pastor ideal

O chamado homem de Deus não é alguém sobrenatural – e o pastoreio não é algo simples.

Ao longo de quase quarenta anos – desde que fui ordenado ao pastorado –, tem sido possível observar profundas mudanças em relação àqueles que exercem o ministério da Palavra. Elas não acontecem apenas no perfil dos pastores, como também nas práticas pastorais e até mesmo no modo com que o próprio povo de Deus os tem considerado. Lembro-me, com saudades, dos primeiros tempos, ainda jovem, ao ver colegas pastores envolvidos com alegria e muita esperança no ministério. Não é este o cenário que, em geral, hoje tenho assistido. O que se observa, e é extremamente preocupante, é a redução da alegria, da autorrealização e da esperança daqueles que ocupam o púlpito. E tal sentimento afeta suas famílias.

Sem dúvida, há muitos pastores que ainda nutrem elevado ideal ministerial. Mas, lamentavelmente, tem havido graves distorções sobre o que seja, de fato, pastorear o que chamamos de rebanho de Deus – mesmo porque, por outro lado, têm surgido pretensos pastores que mais se aproveitam do poder e do dinheiro das pessoas do que, de fato, exercem o pastorado com integridade. E, neste ponto, temos observado diversos caminhos perigosos. Em primeiro lugar, o que vemos é o Cristianismo sendo reduzido a atividades, programas e eventos eclesiásticos e pregação. O domingo acaba se tornando um transe de fim de semana, onde a celebração dá lugar à agitação. O domingo – dia de descanso e reflexão – acaba se tornando em dia de cansaço.

É claro que o pastoreio não é uma atividade simples. Pastores são chamados a dar conta de tantas atividades e responsabilidades que acabam não tendo tempo de pastorear, cuidar do rebanho, visitar um membro da igreja que foi hospitalizado ou mesmo telefonar parabenizando uma ovelha no dia de seu aniversário. A diretoria da igreja ou da denominação cobra produtividade; reuniões sem fim são realizadas; novos projetos são apresentados a cada instante, muitos dos quais envolvendo atividades bem diversas do verdadeiro pastoreio. E o ministro do Evangelho, de quem se cobra sempre uma palavra inspirada e uma conduta acima de qualquer crítica, acaba não tendo tempo para orar, ler a Bíblia, fazer seu devocional ou cuidar adequadamente da família. Filhos e cônjuges precisam ser pastoreados, e o pastor acaba não dando tempo para isso – e a família acaba se frustrando com seu pastor. Paradoxalmente, há um pastor dentro de casa, mas sua própria família é órfã de pastoreio.

Para ganhar o coração e a credibilidade de uma ovelha, leva-se muito tempo. Porém, para perder a confiança e criar frustração e desapontamento, basta um segundo – seja a falta de uma visita no momento mais difícil ou a ausência de uma palavra de decisão em um momento de conflito.

Durante mais de dez anos, fiz um levantamento de dados entre colegas de púlpito de uma grande denominação em nível nacional. Os resultados, em alguns itens, chegam a ser assustadores. Treze por cento dos pastores, por exemplo, dizem que as atividades eclesiásticas empobreceram sua vida familiar; 65% admitem-se incapazes para o exercício do ministério; e 30 por cento dos pastores que ouvi dizem que, se pudessem voltar atrás, mudariam muita coisa em sua vida e ministério.

Há mais. Cerca de 30% dos pastores não têm desenvolvido uma perspectiva de vida para daqui a cinco anos; e 75% dizem que não têm disciplina no uso do tempo. Sete em cada dez deles não estão contentes com o tempo que investem na vida devocional e 75% não têm culto doméstico regularmente em seu lar (dez anos antes, o índice era 64%). Não é difícil concluir que algo vai mal. Um retrato com este cenário nos oferece algumas indicações. Em primeiro lugar, o senso de empobrecimento numa atividade de trabalho pode indicar a perda de sentido em objetivos da vida, de modo que o empenho e criatividade fiquem prejudicados. Isso cria um círculo vicioso com graves consequências futuras. Por outro lado, o investimento na vida devocional e a autodisciplina na natureza de trabalho pastoral são fundamentais. Para falar de Deus, é necessário falar com Deus em primeiro lugar. Então, como desenvolver o ministério da pregação, do ensino, do aconselhamento – naturais na atividade pastoral – sem, contudo ter dedicada vida devocional? A indicação de 70% neste item é preocupante, pois reflete diretamente nas atividades nobres do pastoreio. Sem púlpito, atuação no aconselhamento e ensino enriquecidos, como alimentar o povo? O que estariam fazendo estes colegas no ministério, se não dedicam tempo para falar com Deus? Estariam tão ocupados com os afazeres pragmáticos da igreja? Isso, sem falar na autodisciplina que indica carência na gestão do tempo. Tudo isso junto acarreta muita frustração e tédio. Ao fim de cada dia, o indivíduo se sente frustrado e inútil, com elevado senso de culpa.

DESAJUSTES

Paulo, em suas epístolas, adverte a Tito e Timóteo de que quem não cuida de sua casa, não deve cuidar do rebanho de Deus. Ora, se a maioria dos pastores pesquisados parece desajustada em sua vida familiar, o que se pode esperar deles? A tristeza na vida de filhos e esposas de pastores já tem sido notada por diversos líderes mais experientes. Minha mulher, que é psicóloga, tem trabalhado com esposas de pastores e notado a decepção que muitas delas nutrem em relação ao ministério, à igreja e até com o próprio marido pastor. Isso, ainda sem contar com os desastres emocionais que a cada dia aumentam na vida de muitos pastores, com envolvimentos fora do casamento ou, simplesmente, matrimônios frustrados.

O problema é que, ao longo do tempo, foi se formando a imagem de que o “homem de Deus” é alguém sobrenatural, com capacitação gigantesca, portador de dons e talentos espetaculares, inquestionável autoridade e elevado nível de resistência às pressões, asperezas, obstáculos e intempéries da vida e ministério. Contudo, o tempo também foi provando que este imaginário não era compatível com a natureza de qualquer ser humano – afinal, pastor não é como Jesus, que tinha a natureza humana e divina. Somos, os pastores, como qualquer ser humano na face da terra: imperfeitos, limitados, pecadores. Gente, simplesmente, e não máquina. Aliás, até as máquinas falham e necessitam de ajustes. É claro que um líder religioso não pode tratar com autoritarismo, indelicadeza, omissão ou irresponsabilidade o seu rebanho. Mas, também, a igreja não pode tratar o pastor como se fosse alguém sem sentimentos, sem família, que não tivesse dor e fosse impermeável ao sofrimento. Afinal, pastor também é gente.

Pastores necessitam ser pastoreados. As igrejas, denominações e associações ou ordens de pastores necessitam rever suas prioridades e agendas de estudos e atendimento, considerando os atuais cenários, para ajudar os pastores a enfrentar os sofrimentos e os desastres ministeriais. Os seminários e faculdades teológicas necessitam criar oportunidades de capacitação, atualização e recapacitação continuada para pastores em temas não apenas teológicos e bíblicos, mas, também no trato dos dilemas pastorais, pessoais, matrimoniais e familiares. Tenho trabalhado em educação teológica e ministerial há quase 40 anos porque acredito que é possível sempre formar novas gerações com novas esperanças. Quase que semanalmente, digo aos meus alunos que tenho esperança neles e que poderão investir no ministério, acreditar no pastoreio de vidas e valorizar isso.

Vemos, assim, que o modelo de ministério pastoral que temos adotado por décadas demonstra estar perdendo o fôlego. É notória a presença cada vez maior, em nossas igrejas, de alunos universitários, profissionais liberais, executivos, empresários e funcionários públicos capacitados, que colocam em desafio o modelo que, tradicionalmente, tem sido construído, inclusive, nos bancos dos seminários. Tais espaços, antes chamados escolas de profetas, necessitam preparar não mais obreiros, repetidores de práticas ministeriais que bem cabiam para o passado recente, mas que hoje já não conseguem dar conta do recado.

“ÉPOCA DA PERFORMANCE”

Vivemos na época da performance, da busca por soluções para os dilemas germinados pela cultura pós-moderna, que coloca o indivíduo e a sua subjetividade como ponto de partida e legitimação da verdade e da razão da vida. As pessoas já não estão mais interessadas na eternidade, nas ruas de ouro da Nova Jerusalém. Vivemos num mundo em que tudo parece valorizar a diversidade e a busca pelas fronteiras da prática moral e ética, onde tudo é válido, desde que traga a felicidade. Então, vivemos numa cultura do supérfluo e do vale tudo – e será que nossos púlpitos têm conseguido trazer respostas seguras e bíblicas para este turbilhão de contestações? Será que o clássico plano da salvação, fortemente calcado no Evangelho escatológico, que valoriza a morte e a busca pelo além, estaria conseguindo demonstrar a profundidade da mensagem bíblica, apontando para uma significativa razão de viver?

Tudo isso sinaliza a urgente transformação do modelo de formação teológica e ministerial, que precisa mudar de foco – da formação de obreiros para a formação de líderes. Obreiros são copiadores; são operadores práticos de um sistema; são ensinados a cumprir o verbo “fazer” no ministério. Obreiros são treinados para administrar e priorizar o dia-a-dia das atividades da igreja, e não necessariamente para ter uma visão de futuro e interpretar este mundo  levando em conta tanto o ensino bíblico-teológico como primeiro ponto de partida, mas, também, considerando análises do ambientes culturais e ideológicos em que vivemos. Urge ao ministro do Evangelho conhecer as tendências que estão cimentando o chão para novos cenários, mobilizando sua visão para a busca de caminhos seguros para que o povo de Deus possa não apenas sobreviver como participar, construtiva e criativamente, da realidade histórica em que vive.

Necessitamos não apenas de escolas de profetas, mas também de escolas de líderes, de mestres, de conselheiros e conselheiras, de gente que pastoreie o povo de Deus com sabedoria, criatividade, integridade e atualidade. Homens e mulheres de Deus que saibam se valer de uma apologética dialogal, pois a lógica do confronto já não conquista ninguém. Nossos púlpitos necessitam, com urgência, atenuar a ênfase cartesiana e racional das mensagens e tratar o povo de Deus como gente de carne e osso, e não como anjos ou seres que estão apenas esperando a morte chegar. Os pastores precisam entender que as ovelhas que o assistem pregar todo domingo são seres vivos e reais, que vivem uma realidade concreta, que necessitam de respostas vivas e concretas para os seus dilemas quotidianos. Precisamos voltar a falar ao coração das pessoas – e não apenas falar ao seu cérebro.

É preocupante quando ouvimos pastores, inclusive que comandam grandes igrejas, falando com orgulho contra a reflexão, contra a busca de conhecimento. Eles querem que tudo se reduza ao viés prático, utilitário, da fé e da mensagem de Cristo. Ao invés de priorizar a salvação das almas e a transformação das vidas, parecem mais interessados em fidelizar clientes de bens simbólicos da religião. Curiosamente, até no meio empresarial se buscam modelos mais eficazes de liderança. O vice-presidente da megacorporação Google, Laszlo Bock, menciona cinco critérios para o ingresso na carreira da empresa: curiosidade, capacidade de aprender, humildade, motivação e liderança. Como seria bom se nossos pastores buscassem tais elementos para seus ministérios e vida pessoal… São critérios bem compatíveis com a visão bíblica de líderes que possam levar o povo de Deus com segurança neste mundo cada vez mais afastado do divino.

Os pastores contemporâneos precisam rever conceitos, prioridades e ocupações. Metas e alvos são bons de se perseguir, mas só – e somente só – se nos conduzirem a um novo planejamento de vida e ministério que leve em conta a singeleza do Evangelho, o valor do outro e, sobretudo, a relação com Deus. Somente assim os ministros não serão apenas pregadores, mas pastores na acepção plena do termo, que conduzem os outros e a si mesmos aos pastos verdejantes do Senhor, onde há paz e plenitude. O diálogo, a oração e a dependência irrestrita de Deus são o caminho ideal para a manutenção saudável da vida na igreja.

Lourenço Stelio Rega, teólogo e pastor batista, é doutor em Ciências da Religião, especialista em ética cristã e diretor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo

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Liderança Mon, 14 Dec 2015 11:12:46 +0000
A imensa rede do Bem http://cristianismohoje.com.br/materias/missoes/visao-mundial-rede-do-bem http://cristianismohoje.com.br/materias/missoes/visao-mundial-rede-do-bem A imensa rede do Bem

Visão Mundial comemora 65 anos no mundo e 40 no Brasil como a principal agência de apadrinhamento de crianças do planeta. A organização atende comunidades pobres em todo o Brasil, com uma rede de voluntários e parcerias.

No conturbado mundo do pós-guerra, em 1947, um dos maiores dramas era o das crianças em situação de risco. Particularmente no Oriente, devastado pelos conflitos envolvendo o Japão, a China e Coreia, milhões de meninos e meninas estavam entregues à própria sorte, na orfandade e vivendo na mais absoluta miséria. Foi nesse contexto que o pastor americano Robert Pierce encontrou a pequena Jade, cujos pais morreram. Ela vivia de maneira precária em um orfanato na ilha de Xiamen, próxima a Taiwan, e já não tinha praticamente o que comer. Bob, que além de ministro evangélico era correspondente de guerra, deu à professora alemã Tena Hoelkedoer, responsável pelo abrigo, os últimos cinco dólares que tinha na carteira. Porém, fez um trato: o de enviar, todos os meses, quantia equivalente para ajudar a manter Jade. 

Assim nasceu o sistema de apadrinhamento infantil que hoje é referência mundial e ajuda a prover educação, alimentação, vestuário e outras necessidades básicas a milhões de crianças carentes ao redor do mundo. É através da Visão Mundial (WV, ou World Vision, em inglês), fundada por Pierce em 1950, que pessoas de mais de 90 países têm a oportunidade de proporcionar oportunidades a crianças que, de outra forma, sequer sobreviveriam. Nas regiões mais pobres do globo – Ásia, América Latina e África –, a WV desenvolve uma série de ações humanitárias, que vão desde o socorro emergencial em catástrofes como terremotos, secas prolongadas e conflitos armados, ao fornecimento de microcrédito para pequenos produtores, montagem de cooperativas de trabalho, construção de cisternas e sistemas de irrigação, distribuição de suprimentos e formação profissional, além de diversas atividades na área de educação e cultura, fomento social e desenvolvimento comunitário.

Combater a fome é uma das prioridades da organização. Por isso, a WV especializou-se em iniciativas que vão desde o incentivo à pesca e o tratamento da água à distribuição de sementes e transmissão de conhecimento acerca de técnicas agrícolas e melhor aproveitamento do solo, em lugares tão diversos como o Sudão, a Índia e o Brasil. Em nosso país, a organização marca presença desde 1975 e conta com 72,5 mil padrinhos. Cada um deles contribui com cerca de R$ 50 mensais, o suficiente para manter uma criança na escola, recebendo alimentação adequada, suporte familiar e comunitário, e a salvo de situações de risco. Para comemorar os 40 anos da entidade no país, a Visão Mundial Brasil recebeu a embaixadora internacional da Visão Mundial e filha de Bob, Marilee Pierce, que conversou com exclusividade com CRISTIANISMO HOJE (ver entrevista a seguir).

VALORES CRISTÃOS

Durante todo o ano de 2015, diversas comemorações da data foram feitas em Brasília, Fortaleza, Recife e São Paulo. Em novembro, além de cultos e eventos comemorativos no Rio de Janeiro, a Visão Mundial recebeu a Medalha Pedro Ernesto, conferida pela Câmara de Vereadores em reconhecimento aos serviços prestados à sociedade brasileira. Ao longo de 2014 – o último ano com dados totalizados –, a Visão Mundial desenvolveu ações focadas em proteção infantil, educação, mobilização política de crianças e adolescentes e oportunidades econômicas para jovens e famílias, beneficiando quase 200 mil pessoas diretamente e outras 500 mil de maneira indireta em dez estados, com foco no Nordeste, onde os indicadores de risco social são mais agudos.

“Nossa principal maneira de atuar é estabelecendo parcerias com as comunidades mais vulneráveis e desenvolvendo com elas ações para a melhoria do local, considerando as especificidades de seu contexto”, explica a diretora de Mobilização da Visão Mundial Brasil, Maria Carolina da Silva. Assim, se a maior carência em determinada comunidade é na área de saúde, a entidade direciona recursos e mobiliza grupos e órgãos públicos para melhorar o quadro. Crianças e adolescentes são prioridade. “Oferecemos aulas de informática, teatro, música, esportes, oficinas de saúde, proteção contra o abuso e exploração sexual, participação e monitoramento de políticas públicas, entre outros”, explica Carolina. “Motivados por valores cristãos, nos dedicamos a trabalhar com as pessoas mais vulneráveis, independentemente de religião, raça, grupo étnico ou gênero.”

Embora seja um dos principais campos de atuação da WV, o Brasil também colabora na captação interna de recursos, seja por meio do apadrinhamento de crianças, doações únicas ou de ações específicas como as campanhas “Doe para uma causa” e “Catálogo de presentes”. Já nações ricas, como Austrália, Estados Unidos, Canadá e Itália, entre outras, participam da captação de recursos destinados a países cujos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) são muito baixos e necessitam de ajuda internacional. Gozando de grande credibilidade internacional em função do rigor de suas contas, que são submetidas a auditorias externas, e de status consultivo junto à ONU, a Visão Mundial tem demonstrado, ao longo dos últimos 65 anos, a capacidade de ação e a solidariedade de cristãos do mundo todo. O Reino de Deus agradece! 

VISÃO MUNDIAL NO BRASIL

- 700 mil pessoas foram beneficiadas em 2014

- 72,5 mil são os padrinhos no país

- 50 reais é o valor médio das doações mensais

- 35 são os Programas de Desenvolvimento mantidos pela entidade

 

ENTREVISTA COM MARILEE PIERCE

Em visita ao Brasil, a embaixadora internacional da Visão Mundial diz que a ação não pode ser separada da oração. Para Marilee Pearce, cristãos precisam lutar contra as injustiças sociais.

Embaixadora internacional da Visão Mundial, a americana Marilee Pearce Dunker percorre várias regiões do mundo incentivando o trabalho em favor dos mais pobres, a parceria entre igrejas e organizações cristãs e o anúncio do Evangelho de Cristo da maneira mais prática possível. Sua motivação para esta obra vem da infância, já que é filha do fundador da entidade, Bob Pierce. Marilee foi a convidada especial das comemorações dos 40 anos da organização no Brasil e falou com exclusividade a CRISTIANISMO HOJE:

CRISTIANISMO HOJE – Qual é a impressão que a senhora, como estrangeira, tem do Brasil?

MARILEE PIERCE DUNKER – O Brasil é um bonito e diversificado país, assim como os Estados Unidos. Aqui, como lá, quem vive nas áreas mais prósperas não toma conhecimento dos desafios à sobrevivência que seus concidadãos enfrentam em outras regiões. Hoje, após 40 anos, a Visão Mundial está trabalhando nas áreas mais pobres do Brasil, fazendo a diferença para salvar vidas de dezenas de milhares de crianças e famílias. Em 2011, estive no interior de Alagoas para ver o trabalho da Visão Mundial para minorar os problemas decorrentes da seca e da miséria depois de passar uma semana no Rio de Janeiro, desfrutando de suas belezas e de todo conforto. O que vimos nos chocou demais. Acontece que não podemos mudar aquilo que não vemos. Eu acredito que a Igreja brasileira está cheia de pessoas generosas e solidárias que querem se deixar usar por Deus para fazer a diferença. Mas temos de ver as necessidades e decidir agir.

E qual é a maneira certa de agir?

Há muitas maneiras de Deus chama o seu povo para se envolver na luta contra o sofrimento deste mundo. A primeira, claro, é a oração. Isso pode parecer uma simplificação excessiva – mas a oração é a nossa maior arma. E devemos disciplinar nossas vidas a praticá-la em uma base diária. As batalhas que enfrentamos não são contra a carne e o sangue, mas contra principados e potestades espirituais. Meu pai dizia: “Só porque você não pode fazer tudo para todos, não deixar de fazer alguma coisa”. Todos nós podemos fazer alguma coisa. Como cristãos, não devemos desviar ou permitir que nossos corações fiquem endurecidos. A nossa força só será totalmente sentida neste mundo quando nos movemos como um corpo.

O que a Visão Mundial tem feito diante do drama dos refugiados, uma das mais graves crises humanitárias dos últimos tempos? 

Mais de 2 milhões de pessoas na Síria, Líbano, Jordânia e Iraque já receberam suprimentos, água potável, itens de higiene, comida e ajuda médica através de doações generosas de igrejas parceiras e apoiadores da Visão Mundial. Estamos também fornecendo ajuda na Sérvia, distribuindo alimentos e artigos de higiene para ajudar as famílias que fogem para salvar suas vidas. Como uma organização focada na infância, nós criamos programas que incluem educação suplementar, além de um lugar seguro onde eles podem brincar e se recuperar de cicatrizes emocionais.

Sendo uma entidade de orientação cristã, até onde a Visão Mundial separa a ação social do proselitismo religioso?

Meu pai fundou a missão para revelar o amor de Deus e cuidar das viúvas e dos órfãos em suas dificuldades, alimentando os famintos, defendendo que não têm voz e ganhando o direito de partilhar a nossa fé. A coisa mais significativa qualquer cristão pode fazer é compartilhar a boa nova do Evangelho com os outros. Isso é o que Cristo disse a seus seguidores.  Mas há muitas maneiras de compartilhar o amor e a esperança de Deus neste mundo. Durante os primeiros 40 anos de nossa história, tínhamos uma abordagem evangelística forte no nosso ministério. E, em muitos países, como o Brasil, onde a Igreja é forte, nós ainda procuramos maneiras de fazer parceria com os ministérios e igrejas locais para compartilhar o Evangelho e servir os pobres.

A senhora acredita que há esperança para o mundo?

Claro que sim! Eu acredito que Deus está chamando um exército de guerreiros espirituais na juventude de hoje, como ele fez com a geração de meu pai. As ações que hoje são feitas, em parceria com a Igreja do Senhor, para revelar ao mundo o amor e o poder de Deus são uma das razões porque eu, pessoalmente, tenho esperança. A cada dez segundos, uma criança morre de fome em algum lugar do mundo. Sei que nunca faremos o que é suficiente, mas, pela graça de Deus, estou fazendo o que posso.

 

APADRINHAMENTO PELO CELULAR

A Visão Mundial é a maior instituição de apadrinhamento do mundo. Em seus 40 anos de atuação no Brasil, a organização cristã já exerceu 77 programas de combate à pobreza infantojuvenil em quase 900 comunidades. Atualmente, cerca de 72,5 mil padrinhos contribuem regularmente com a Visão Mundial, que agora está abrindo uma nova oportunidade – e ainda mais fácil – para quem deseja participar desse ministério. Basta enviar basta enviar uma mensagem de celular, via SMS, com a sigla VMB, para o número 27368. Com 50 reais por mês, o padrinho atende às necessidades de uma criança ajudada pela Visão Mundial.

A organização trabalha na transformação do ambiente em que a criança e o jovem estão inseridos, para assim garantir a eles a sua proteção e inserção social. A Visão Mundial também atua em situações de emergência com ações pontuais, como doações para as vítimas do terremoto no Nepal, em maio de 2015, e para a campanha Criança sem Fome. Realizada no Dia da Alimentação, 16 de outubro, a campanha arrecadou aproximadamente 15 mil reais para garantir as refeições das crianças no Quênia. Quem quiser mais informações sobre a Visão Mundial Brasil e outras formas de colaborar pode acessar o site www.visaomundial.org.br.

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Missões Mon, 07 Dec 2015 12:48:09 +0000