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Um peregrino no Caminho

A trajetória tem como ponto de partida nosso ser perdido e caído, capaz de pensar e agir com maldade, e prossegue em direção à perfeita humanidade de Jesus Cristo.

Cerca de 2 milhões de turistas e peregrinos visitam Israel todo ano, número equivalente a um quarto da população do país. É uma cifra surpreendente diante da aparente escassez de atrativos daquela região, quando comparada a outros destinos turísticos mais populares ao redor do mundo. Jerusalém, o destino final e mais aguardado pelos viajantes, é um caso exemplar. Do ponto de vista turístico, não se pode dizer que seja uma cidade especialmente encantadora. A cor amarelada das pedras em seus edifícios é sempre bonita à luz do sol poente, mas também lhe dá um ar de mesmice e monotonia. Dentro das muralhas, as ruas estreitas e mal sinalizadas lhe conferem um aspecto de labirinto e produz certa sensação de claustrofobia. Inútil recorrer à ajuda de mapas ou aparelhos com GPS. Algumas áreas têm um aspecto de decadência e abandono. Nos bairros mais comerciais, o comportamento invasivo dos vendedores torna-se insuportável depois de algum tempo. Fora dos muros, a arquitetura é banal e o trânsito, nervoso e congestionado como em qualquer metrópole. As fontes de água são escassas. Há poucos jardins e áreas verdes. Além dos limites urbanos, a paisagem sem graça é dominada por escarpas desérticas e pedregosas.

Quem vai a Jerusalém em busca de uma cidade santa, da paz e da esperança, fica logo chocado ao observar o clima de tensão reinante no ar. Um acidente de trânsito dos mais banais pode ser o motivo de trocas de insultos, pedradas e outros confrontos mais graves. Passageiros são obrigados a descer de trens e ônibus a qualquer hora do dia ou da noite, para que a polícia investigue suspeitas de bomba. Quem chega à procura de uma revelação espiritual ou de algum significado especial nos lugares sagrados decepciona-se ao ver que igrejas e templos são alvos de disputas mesquinhas e ridículas entre diversas denominações religiosas. Foi neste cenário, contudo, que empreendi uma peregrinação inesquecível. Em 2013, após lançar a trilogia 1808, 1822 e 1889, a expectativa dos leitores e do mercado era por outro imediato lançamento editorial. O livro bíblico do Eclesiastes, no entanto, ensina que tudo neste mundo tem o seu tempo; cada coisa, a sua ocasião. Há o tempo de plantar e o de colher; o de ficar calado e o de falar. Por isso, em vez de correr, decidi que aquele era um tempo de silêncio e de espera; hora de fazer um mergulho interior em busca de orientação e paz espiritual. Tornei-me um peregrino.

Na companhia de um grupo de brasileiros – todos cristãos, católicos ou evangélicos de diferentes denominações – sob a orientação do pastor e mentor espiritual Osmar Ludovico da Silva, eu e Carmen, minha mulher, fizemos uma jornada repleta de significados. Ela resultou – quem diria? – em um novo livro, O caminho do peregrino, em que eu e Osmar descrevemos nossa experiência na Terra Santa. A viagem a Israel ocorreu em um intervalo milagrosamente calmo, entre o último conflito entre israelenses e palestinos na Faixa de Gaza e uma série de atentados terroristas cometidos em Jerusalém nos últimos meses de 2014. O programa da viagem incluía tempo para visitas turísticas e momentos de silêncio, meditação e oração. A cada nova etapa, ouvíamos explicações sobre a importância histórica e arqueológica de cada lugar; em seguida, nos reuníamos à sombra de uma árvore ou em local mais afastado do burburinho dos turistas para ouvir trechos das Sagradas Escrituras e uma reflexão. À noite, após o jantar, nos encontrávamos novamente no hotel para compartilhar as impressões e emoções do dia.

Os momentos de silêncio e de oração constituíram a melhor parte do roteiro. Essa disciplina foi, aos poucos, estreitando nossos vínculos de amizade e cumplicidade. No começo, éramos pouco mais do que um típico conjunto de turistas brasileiros vindos de diferentes regiões, na aparência sem muitos pontos em comum nos quais pudéssemos nos identificar. No final da viagem, depois de dez dias na estrada, havíamos nos tornado um grupo solidário e fraterno, capaz de compartilhar segredos e ansiedades pessoais. Era como se algo misterioso houvesse nos transformado por dentro ao longo da jornada, de modo a nos dar uma nova e iluminada identidade, confirmando desse modo um fenômeno peculiar das grandes peregrinações – que eu não havia sentido nem em Roma, a Cidade Eterna, e nem no místico caminho de Santiago de Compostela, que já percorrera. A pessoa que empreende uma jornada espiritual dessa natureza sempre volta diferente de quando partiu.

Existem armadilhas no caminho do peregrino. Uma delas, a mais óbvia, é o comércio abusivo que ameaça transformar os lugares sagrados em parques temáticos religiosos. Quem já visitou Aparecida (SP), Juazeiro do Norte (CE), Fátima e Lourdes, em Portugal, ou Roma, para citar alguns exemplos, provavelmente também se surpreendeu e até se escandalizou com a oferta absurda de imagens, cruzes, santinhos, rosários e outros objetos de devoção, em meio à balbúrdia do comércio barato que procura tirar a atenção e o dinheiro do viajante. Na Terra Santa também é assim. A quantidade de quinquilharias à venda nas ruas de cidades como Nazaré e Belém é inacreditável. Percorrer a chamada Via Dolorosa, situada no bairro árabe de Jerusalém, é uma experiência de tirar o fôlego. O barulho é desconcertante e comerciantes locais oferecem de tudo, menos momentos de silêncio e oração. A lista de curiosidades em oferta inclui água engarrafada do rio Jordão, pequenos frascos com “azeite bento” e vidrinhos com amostras de solo dos locais onde, supostamente, Jesus pisou – mercadorias que, por sinal, também estão disponíveis a peso de ouro em certas igrejas no Brasil.

SONHOS E CRENÇAS

Jerusalém resume as esperanças, os sonhos, as crenças e as convicções da maioria dos seres humanos hoje vivos sobre a Terra. É lugar sagrado para as três grandes religiões monoteístas – Judaísmo, Cristianismo e Islamismo –, cujos fiéis somam mais de 4 bilhões de pessoas. Sua história, repleta de feitos épicos, é banhada de muito sangue e sofrimento. A cidade que hoje se vê na superfície cobre uma história muito rica que se esconde nas suas profundezas. Quem percorre suas ruelas e muralhas milenares sabe que bem ali, debaixo de seus pés, existe outro mundo, ancestral e repleto de mistérios. Basta descer três ou quatro metros para voltar 2 mil anos no tempo, como mostram suas ruínas e sítios arqueológicos. Além de muito antiga, é uma história que está longe de acabar. Segundo as crenças religiosas, Jerusalém seria o palco de acontecimentos aguardados para o futuro. Antigos livros de profecias, como o do Apocalipse, falam de uma “Nova Jerusalém”, restaurada e imaculada, que descerá gloriosa dos céus no fim dos tempos.

Uma região tão carregada de simbolismos, dores e esperanças pode ser plena de paz e harmonia ou repleta de medos e ansiedades. Depende da busca de cada um e das respostas que espera encontrar. O clima de euforia e ruído exige muita paciência e disciplina do peregrino empenhado em fugir do consumismo e das distrações mudanas que dominam os lugares sagrados. A Organização Mundial de Saúde já chegou a catalogar a chamada síndrome de Jerusalém, descrita pela primeira vez em 1930 pelo psiquiatra Heinz Herman. Trata-se de um conjunto de reações físicas ou psicológicas de natureza religiosa que se manifesta em pessoas que visitam a Cidade Santa e afeta cristãos e judeus, sem distinção. Em geral, é gente sem histórico de transtornos psiquiátricos que, subitamente, são tomados por delírios e comportamentos obsessivos. Em 1969, Michael Rohan, um peregrino australiano, foi preso depois de entrar em surto psicótico e atear fogo à mesquita de Al-Aksa, lugar sagrado para os muçulmanos na chamada Esplanada do Templo. Seu gesto serviu de gancho para o roteiro do filme The Jerusalem syndrom, do diretor Erin Sax. O fenômeno é tão comum que hospitais e guias turísticos locais são treinados para lidar com situações desse tipo.

A palavra peregrino vem do latim per agrum, que significa “através do campo”. Desde os tempos antigos, milhões de seres humanos se habituaram a deixar suas casas e cidades em busca de destinos cujo significado transcende a realidade visível. Percorrem a pé, a cavalo, de bicicleta ou carro trilhas e estradas que cortam países e continentes. Há uma diferença entre ser turista e peregrino. O turista olha para fora; já o peregrino é aquele que volta-se para dentro de si mesmo enquanto caminha. A cultura, o clima e a geografia podem ser diferentes para cada viajante e roteiro escolhido, mas a riqueza da jornada é feita mais pela disposição interna de quem caminha do que pela paisagem que se vê. Depende mais de uma disposição interior do que de fatores externos. O peregrino faz, portanto, um caminho em direção a si – e a Deus. Em algumas ocasiões, trata-se de uma viagem mais simbólica do que real. É possível ser um bom peregrino sem nunca sair de casa ou deixar a cidade em que se nasceu. Nesses casos, a viagem se dá para dentro de si mesmo. A peregrinação é uma analogia da propria vida: todos nós somos, de alguma forma, peregrinos neste mundo. A rigor, não sabemos bem de onde viemos, por que estamos aqui ou para onde vamos. Ainda assim, caminhamos. “Podemos comparar a existência humana a uma peregrinação”, resume Osmar no epílogo do nosso livro. “Somos caminhantes e peregrinos em uma jornada que vai do nascimento à morte, do efêmero ao eterno, da terra ao céu”.

Tal trajetória tem como ponto de partida nosso ser perdido e caído, capaz de pensar e agir com maldade, e prossegue em direção à perfeita humanidade de Jesus Cristo. A experiência do peregrino é a de se tornar mais parecido com ele ao longo da vida. Trata-se de uma empreitada sem volta e sem fim, porque busca o eterno e o infinito. Quando mais nos distanciamos de onde partimos, mais longe estamos do nosso destino. Mas o peregrino sabe também que não caminha só. O próprio objeto de sua busca lhe segue os passos. É neste itinerário existencial e espiritual que nos encontramos com Cristo. A peregrinação, portanto, é um caminho com Cristo até Cristo – e a alegria do caminhante não está em chegar ao destino, mas no próprio Caminho.

Laurentino Gomes é jornalista e membro da Academia Paranaense de Letras. Escritor consagrado, conquistou, por seis vezes, o Jabuti, principal prêmio da literatura brasileira. Seu último livro, O caminho do peregrino, (Editora Globo – Principium), no qual foi baseado este artigo, foi escrito em coautoria com Osmar Ludovico da Silva, colunista de CRISTIANISMO HOJE

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