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A toga e a Bíblia

Muitos juízes e pastores tornam-se absolutamente impermeáveis ao compartilhamento de ideias e às divergências de opinião. Quem segue esse caminho vai se tornando cada vez mais distante de seus subordinados e liderados.

Os juízes são vistos pela sociedade como detentores de grande poder e autoridade. De fato, eles têm em suas mãos grande parcela do poder estatal e a capacidade de influenciar a vida das pessoas. Os pastores, de igual modo: sua palavra pode ser decisiva na vida das ovelhas. Tanto uns quanto outros, enquanto desempenham com primor suas vocações, exercem um papel social de grande importância. Pelo protagonismo de suas posições, acabam dando direcionamento àqueles que se encontram sob suas responsabilidades. Juízes e pastores trabalham sob o domínio das leis a que se submetem e aos seus respectivos cânones, sejam estes de origem humana ou divina. Quando pastores se submetem às legítimas leis dos homens, demonstram o quanto honram a Deus; e os juízes, quando pautam suas vidas e decisões pelas leis justas dos homens, demonstram o tipo de caráter idealizado pelo Criador. Ambas as atividades têm, portanto, uma dimensão divina e humana. Desse modo, a experiência de um juiz pode contribuir na gestão cotidiana dos desafios pastorais, e vice-versa.

Ao mesmo tempo, determinados equívocos cometidos numa e noutra função são muito parecidos em sua essência. Um deles é a arrogância. A imprensa tem noticiado casos de abuso de poder cometidos por magistrados. Para entender essa triste patologia, recorde-se da pior visão estereotipada que se tem de alguns juízes: distantes, arrogantes, donos da verdade, prepotentes. Alguns, de fato, são assim. Do alto de sua posição de autoridade, ditam ordens de modo arbitrário ou até tirânico; ouvem pouco, escondem-se atrás da autoridade e sempre apontam culpados para as próprias falhas. Da mesma maneira, pastores também precisam prestar muita atenção aos seus corações enquanto trabalham. Não são raros os casos na história da Igreja em que líderes religiosos tentam se alojar no trono do próprio Deus. É gente que se apropria indevidamente da glória divina e abusa da autoridade que lhes é outorgada pelos céus. Distanciam-se do rebanho e tornam-se intocáveis. Quando questionados, fogem para o argumento de autoridade: estão falando “em nome de Deus”, são seus “ungidos”. E há muitas pessoas suscetíveis a tais argumentos.

Pastores que usam sua autoridade de maneira autoritária acabam seguidos por um séquito de discípulos bajuladores, e não por bons e sinceros amigos. A fragilidade de um ministério assim se torna evidente em momentos de crise, quando esse líder se vê acuado e desencorajado. Desprovido de uma equipe forte, acaba rodeado por adultos infantilizados, de pouco préstimo – afinal, nas horas mais amedrontadoras, o líder precisa ouvir conselhos, não elogios. Quanto maior o nível hierárquico de um pastor dentro da sua organização, maior é o risco de incorrer nesse erro. Sempre existem pessoas que não questionam; outras de fato acreditam que o pastor está absolutamente certo sempre; e há aquelas que não estão dispostas a arriscar seus cargos e prestígio questionando o líder. Então, pode ser que os melhores assessores comecem a se afastar e o ministro do Evangelho mantenha ao seu redor apenas os mais fracos ou interesseiros. Isso leva a um perigoso elemento que ameaça o líder: o isolamento. Na magistratura, muitos juízes se encastelam em suas torres, agindo como donos da verdade absoluta. São absolutamente impermeáveis ao compartilhamento de ideias e às divergências de opinião. Líderes que seguem esse caminho vão se tornando cada vez mais distantes de seus subordinados e liderados, adotando comportamento de CEOs de grandes corporações, seja em suas varas ou em suas igrejas.

Sabemos que, para um pastor, é mais comum falar do que ouvir. Pela natureza de seu ofício, o ministro do Evangelho é procurado para dar conselhos, fazer orações e emitir sua opinião diante de dificuldades das ovelhas. Além disso, o pastor atua também como professor e pregador; assim, assume, naturalmente, uma posição de proeminência. O problema é que, sem que perceba, pode vir a acreditar que não precisa ouvir conselhos, ser instruído ou aprender com a sabedoria de quem está por perto. Pior ainda é quando não tem de prestar contas de suas atividades, correndo o risco de ficar sem qualquer tipo de disciplina ou pessoas que possam ajudá-lo a criar balizas e limites. Afinal, todo poder ilimitado é, nas mãos de seres humanos, algo muito perigoso. Há pastores que se encastelam por vaidade; outros buscam o isolamento por insegurança. Temem a vulnerabilidade de ter de assumir que não sabem o que fazer em determinadas ocasiões, ou de dizer, simplesmente, “não sei”. Acreditam, equivocadamente, que perderão sua autoridade se confessarem desconhecer algum assunto, como se ter essa sabedoria completa fosse algo razoável de se esperar.

ESCOLHAS E RISCOS

Uma das principais tarefas de um líder é tomar decisões, e isso nada mais é do que fazer escolhas. Só que escolhas representam rejeições, e isso tem desdobramentos. Portanto, um juiz que tema tomar decisões ou proferir sentenças servirá para pouca coisa. Existem juízes que usam sua inteligência e conhecimento para dizer “não” às partes, porque negar é sempre mais fácil do que aquiescer. Magistrados assim extinguem os processos por motivos banais, deixando de prestar verdadeira jurisdição. Outros tomam suas decisões não baseados no melhor Direito, mas sempre mirando promoções e bons relacionamentos. São juízes que não estão pensando na sua missão de fazer justiça, menos ainda nas implicações éticas e morais desses comportamentos. E quantos pastores estão interessados apenas em bônus imediatos, em participações, resultados e possíveis propostas mais vantajosas para assumir outra igreja ou ministério? Deixam de enfrentar pecados ou problemas entre os fiéis simplesmente para não se queimar perante membros mais influentes da igreja ou autoridades denominacionais.

Acontece que servir a Deus envolve, não poucas vezes, desagradar a muitos. Quando lemos os evangelhos, encontramos um Cristo decidido, que fez escolhas difíceis em seu ministério, sendo a crucificação a mais desafiadora de todas. Um líder irá experimentar com grande regularidade a pressão de ter de dar a última palavra em muitos assuntos. Ele não poderá terceirizar suas decisões sem que perca sua autoridade e a admiração de seus liderados. Pode ouvir conselhos e recolher opiniões do grupo, mas em algum momento terá de dar a palavra final – e toda decisão envolve riscos. Liderar é conviver com o medo, mas não permitir que se ceda a ele. De igual modo, Imersos numa rotina de mediação e julgamento de conflitos, os juízes precisam sempre encontrar soluções corretas e justas. Assim, desenvolvem um apurado discernimento ao longo da carreira. No caso dos pastores, por muitas vezes postos como árbitros de disputas entre pessoas afetivamente próximas a ele, seria interessante poder valer-se do recurso dos magistrados quando se declararam impedidos ou suspeitos em alguns processos. O Código de Processo Civil diz que o magistrado está proibido de exercer suas funções em processos de que for parte ou neles tenha atuado como advogado. O juiz será considerado suspeito, ainda, por sua parcialidade quando for amigo íntimo ou inimigo capital de qualquer das partes, receber presente antes ou depois de iniciado o processo ou aconselhar alguma das partes sobre a causa, entre outros.

Para um pastor envolvido com o rebanho, declarar-se impedido ou suspeito em situações de conflito entre pessoas da comunidade é quase impossível. Tal atitude poderia ser considerada como uma grave omissão. O líder precisa manter a igreja em ordem, conforme Tito 1.5, julgando as pendengas existentes com equidade e imparcialidade. Nesse cenário, uma das partes pode não ser ouvida sem a devida atenção e objetividade, e ainda, ver seu direito à defesa diminuído. Dessa forma, alguém pode acabar sendo vitimado por uma disciplina injusta, ou ver sua demanda tratada sem a necessária gravidade. Pastores podem aprender muito com livros, cursos e com seus próprios erros. Das dores que sofrem por conta de seus desacertos, precisam assimilar uma sagrada lição: diante de momentos críticos, não devem agir por reflexo, mas por reflexão. Ter pressa em ocasiões de importância crítica é tão perigoso quanto uma criança que corre com uma faca na mão.

Paulo, o apóstolo, escreveu em sua carta a Timóteo a respeito do caráter de quem deseja se tornar pastor. Em determinado trecho, estão elencadas as qualidades que os aspirantes ao pastorado devem apresentar, antes de se tornarem ministros. Um grave erro vem sendo cometido por muitas igrejas, que vão dando poder pastoral aos seus candidatos, permitindo-lhes comprovar as necessárias virtudes morais depois de ordenados. As consequências desse erro têm sido vistas. A esta altura, convém lembrar a diferença que há entre moralidade e moralismo. Moralidade é a conduta, o comportamento sobre o qual uma pessoa estrutura seu caráter. Agindo dessa forma, dentro da moralidade, o indivíduo demonstra um caráter semelhante ao de Deus, e ainda o glorifica. Para este, a moral é apenas um meio. A pessoa moralista, porém, elege a moral como seu valor supremo, acima do próprio Deus. Ela usa a moral como princípio, meio e fim de todas as coisas. A pessoa que o moralista gosta de glorificar é ela mesma.

DIVINA TAREFA

Tanto na vida ministerial como no exercício da magistratura, há muitos cuidados que não são, em geral, aprendidos nas escolas teológicas ou nos cursos de Direito, mas sim, através da vivência pastoral e profissional – e, por vezes, de forma dolorosa. Para que a organização, laica ou religiosa, tenha um ambiente seguro e pacificado, é fundamental que os líderes se cerquem de pessoas da melhor qualidade moral e emocional. Eles devem lembrar de que não são onipresentes, e que por isso precisam de pessoas que os ajudem no exercício da liderança. Essas pessoas, escolhidas criteriosamente, precisam de alguma medida de autoridade para que, em caso de necessidade, possam cuidar dos problemas gerados por aqueles que não prezam pelos mesmos valores. No caso dos juízes, precisam ser pessoas que honrem o exercício do cargo público; no dos pastores, irmãos e irmãs tementes a Deus e que zelem pela unidade do corpo de Cristo.

Assim, quando o pastor ou líder tem uma vida que destoa daquilo que prega, ou de forma muito profunda daquela que seus liderados vivem, pode haver a sensação de que existe algum tipo de exploração. Do mesmo modo, pode haver insatisfação e frustração quando o sistema de trabalho ou de remuneração é desigual entre os prediletos dos líderes. Quando existe um abismo muito grande entre o líder principal e seus auxiliares imediatos, ou entre estes e os membros da igreja, mais uma vez se verificará o risco de as pessoas terem uma percepção de injustiça. Um fato verificado em dois mil anos de história da Igreja é que os cristãos gostam de desafios. Já em sua origem, ela enfrentou o desafio de encarar os judeus que não aceitavam a obra de Jesus Cristo. Depois, vieram os desafios impostos pelo Império Romano e inúmeros outros no decorrer dos séculos. Quando o povo de Deus percebe que uma causa divina está em jogo, todos arregaçam as mangas e põem-se a enfrentar os gigantes. Contudo, o que a Igreja não aceita é ser explorada por líderes de motivações espúrias. Os pastores precisam sondar seus corações e verificar se seus projetos são legítimos e defensáveis do ponto de vista do bom senso. Pode ser que, sem que percebam, pastores atravessem a tênue linha que separa o sacrifício legítimo da exploração infame.

Os pastores levam muito tempo para compreender e aceitar o fato de que são pessoas públicas. E ser uma pessoa pública é algo que exige grande dose de maturidade, pois seus atos e palavras têm repercussões muito acima da média. Um pastor deve estar ciente de que seu caminho é ainda mais estreito do que aquele percorrido pelos irmãos e irmãs que ele pastoreia. Isso significará que seus limites deverão ser mais austeros e que suas palavras, muito bem escolhidas. Ser responsável é responder por algo, por alguém. Um juiz é responsável pelas demandas de seus jurisdicionados; um pastor é duplamente responsável pela igreja. Ele responde por ela diante de Deus e da sociedade. Juízes e pastores atuam em áreas diferentes, mas têm em comum o material com o qual trabalham: o ser humano. Ambos se associam na tarefa de fazer desse mundo um lugar bom, seguro, justo, apto para o progresso e grandes realizações. Na teologia reformada, os magistrados são tidos em alta estima, considerados como “o braço de Deus” na sociedade. Isso, porque militam a favor de tudo que é honesto, justo e bom. Assim, pastores e juízes devem ser complementares, como elementos sociais que somam suas vocações, enriquecendo a vida das pessoas que passam por seus caminhos. Os juízes podem aprender muito com os pastores, e os pastores com os juízes. Cientes de que exercem autoridade em nome de outrem – de Deus ou do Estado –, certamente terão um desempenho melhor em suas nobres e divinas missões.

William Douglas é juiz federal, professor universitário e escritor. É autor do livro As 25 leis bíblicas do sucesso (Editora Sextante)

Fabrini Viguier é pastor da Igreja Plena de Icaraí, em Niterói (RJ), palestrante e diretor do Centro de Treinamento para Plantadores de Igreja (CTPI). É autor do livro Ser homem – Um guia prático para a masculinidade cristã (Thomas Nelson Brasil)

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