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A empregada do assento 5c

Está claro que as diferenças sociais vêm diminuindo no Brasil.

NA ÚLTIMA SEMANA DE 2012, EM mais uma das minhas reiteradas viagens entre o Rio de Janeiro e São Paulo, encontrei o Santos Dumont lotado. Eu nunca tinha visto o aeroporto assim naquele horário – 6 da manhã –, mas logo entendi o motivo: centenas de famílias estavam aproveitando as folgas de Natal e ano novo para reencontrar seus parentes e amigos em todos os cantos do Brasil. Dava para perceber que não eram famílias abastadas; tratava-se de gente simples, nordestinos em sua maio-ria, felizes pela oportunidade de poder rever entes queridos sem depender das longas e exaustivas viagens de ônibus. Era emocionante.

As estatísticas do transporte aéreo brasileiro não deixam dúvidas: em 2012, foram quase 155 mi-lhões de embarques e desembarques nos aeroportos nacionais, um aumento de mais de 50% em relação aos anos anteriores. O crescimento se explica pelo crescimento econômico, preços mais atrativos das passagens, facilidades de crédito e investimentos das companhias aéreas pelo aumento na ofer-ta de voos. A verdade é que quem está voando são pessoas que até muito pouco tempo atrás nem so-nhavam em entrar em uma aeronave. E basta andar um pouco de avião país afora para aferir essa realidade com os próprios olhos.

Segundo a excelente pesquisa A nova classe média, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, a classe C cresceu de 42,36% da população brasileira em 2003 para 55,8% em 2011. Ainda mais impressionante é a queda vertiginosa da classe E, a mais baixa no estrato social brasileiro, que caiu de 30% para 15% no mesmo período. Até a classe D está diminuindo, perdendo mais gente para a C do que ganhando da E. Na parte de cima da pirâmide, as classes A e B pularam de 11% para cerca de 17% da população.

Está claro que as diferenças sociais vêm diminuindo no Brasil e que cada vez mais pessoas terão acesso a serviços e bens antes considerados de luxo. Sim, os pobres agora andam de avião, têm carro e vão ao restaurante – e isso é muito gostoso, empolgante de se ver, até porque é a materi-alização do conceito cristão das duas túnicas. Se, antes, tínhamos uma sociedade em que poucos tinham muitas túnicas e muitos, nenhuma, avançamos pelo caminho da mudança. Agora, as túnicas estão melhor distribuídas.

Paradoxalmente, se os antigos pobres ganham acessos, a classe média alta de outrora perderá seus privilégios. Atualmente, o Brasil ainda é o país com o maior número de empregados domésticos no mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho: são 7,2 milhões de trabalhadores do lar, a maioria absoluta do sexo feminino. Mas este é um bom exemplo de algo que vai mudar. Muitas domésticas já estão indo trabalhar em empresas que oferecem salários iguais ou até melhores que as patroas donas de casa, mas com carga horária e benefícios mais interessantes. As leis trabalhistas estão sendo alteradas, garantindo mais direitos àquelas trabalhadoras. Resultado: você tem que ser cada vez mais rico para ser capaz de pagar uma profissional da categoria. Pois sejam bem-vindos ao Primeiro Mundo! Nos países desenvolvidos, uma empregada doméstica e uma babá em tempo integral são privilégio de poucos muito abastados.

Apesar de eu tender a ser um eterno pessimista, é impossível não ser otimista diante do cenário recente. Meu sonho é ainda ver as classes D e E eliminadas. Para isso, além do desafio econômico e social, existe um paradigma histórico e cultural a ser quebrado. Sem classes inferiores, afi-nal, não há classes superiores – seriam superiores a quem? Portanto, para chegarmos a esse ponto, os mais ricos terão de abrir mão do seu elitismo e os mais pobres, da sua subserviência. E tais mudanças de comportamento não acontecem de um dia para outro. Mas o sonho do Brasil do futuro, de ver um país melhor para a totalidade da sociedade e não apenas para alguns poucos, é bastante compatível com os ensinamentos de Jesus.

A presença de migrantes nordestinos nas filas de check-in dos aeroportos e a obtenção de melhores condições pelas empregadas domésticas constituem um grande começo em direção a uma nação mais igualitária e cristã. Resta saber se os privilegiados de hoje vão aprender a limpar banheiro, lavar roupa e encarar com naturalidade a ex-empregada sentada ao lado no avião. Se conseguirem, a sociedade forjada na casa grande e na senzala estará, finalmente, ameaçada.

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