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Na terra do meu avô

Nossas origens podem explicar muito de nossa personalidade, da nossa essência.

Com um primeiro nome italiano e um sobrenome espanhol, com certeza não seria óbvio imaginar minha ascendência nordestina. Mas ali, entre o Carlo e o Carrenho, na certidão de nascimento, existe outro sobrenome – "de Lima" –, tão brasileiro quanto Silva, Pereira e afins. De parte de pai, sou todo espanhol, como o Carrenho não deixa mentir, apesar de ter perdido a "Ñ" e ganhado o lusitano "NH". Do lado materno, sou neto de mineira e de alagoano, dois migrantes que foram para São Paulo tentar uma vida melhor ou, simplesmente, sobreviver. A ideia de deixar "as" Alagoas foi de meu bisavô, que nunca conheci. Saíram andando de Palmeira dos Índios e foram parar em Caruaru, no vizinho Pernambuco, e dali, seguiram, sabe-se lá como, para São Paulo, onde fixaram-se no interior, próximo a Marília. Uma história comum, igual a tantas outras trajetórias nordestinas. Mas com uma diferença: é minha história.
Escrevo este texto ainda em Alagoas, local que sinto como minha terra. Demorei 40 anos para vir aqui; apesar disso, parece que apenas retornei. De alguma forma, a relação com esta terra tão bela, mas igualmente castigada pelo caráter dos homens, me foi passada através do meu avô e de minha mãe, a ponto de o simples fato de estar "nas" Alagoas me emocionar. Além disso, meu avô estará sempre na minha mente por aqui, pois o sotaque da região me recorda, a todo momento, do jeito que ele falava. E tudo isso me lembrou da importância de nossas raízes e de quão relevante, emotivo e saudável é mantermos uma relação com nossa história cultural e geográfica. Isso, aliás, é um das coisas que mais gosto da cultura brasileira: você é de onde você nasceu. A relação é com a terra, não sanguínea. Tal conceito cultural gera, claro, algumas aberrações, como a daquele filho de americano que nasceu em solo brasileiro, foi para os Estados Unidos com três meses e nunca mais voltou – mas que, para nós, continuará sendo para sempre brasileiro. Mas para cada uma destas exceções, há milhares de casos mais comuns, onde a terra de nascimento representa uma história, uma cultura, uma visão de mundo e um jeito de ser.
Enquanto a identificação sanguínea flerta muito perto com a noção de superioridade racial, a identificação pela terra gera um senso de pertencimento e identidade importante para qualquer nação de imigrantes. Nossas origens, portanto, podem explicar muito de nossa personalidade, do nosso jeito de ser, da nossa essência. É claro que somos mudados pelo ambiente,pelos amigos e pelas pessoas; mas, também, somos moldados pela cultura onde nascemos e crescemos. E, ainda que deixemos nossa terra em tenra idade, somos marcados por seus traços, que são perpetuados nas
atitudes e maneiras de nossos pais. Aliás, não é nem necessário nascer em determinada terra para dela herdarmos sua cultura: esse legado é sempre passado de pai para filho, não importa onde a família esteja.
Este é, aliás, o meu caso. Nasci em São Paulo, capital, a três quadras da avenida Paulista, na Maternidade São Paulo. E tenho muito orgulho de minha paulistanidade e dessa cidade que nunca para e empurra o Brasil. Mas, ainda assim, sou muito espanhol. Aprendi a hablar o idioma com facilidade, sou sempre direto e tenho um espírito empreendedor como meu avô e meus bisavós castelhanos. Da mesma forma, acho que tenho muito de alagoano, a ponto de não me sentir um forasteiro "nas" Alagoas depois de três dias por aqui; e continuo me sentindo o eterno gringo no Rio de Janeiro, cidade que me adotou e que aprendi a amar, depois de seis anos em terras guanabarinas.
A verdade é que nossa terra, e a terra de nossos pais e avós, estão sempre dentro da gente. Nosso jeito de ser sempre será influenciado por essa bagagem, e cabe a nós separar o joio do trigo para aproveitarmos o que herdamos de bom e descartarmos o que não presta. Então, descubra, visite e conheça suas origens! Não é à toa que personagens bíblicos como Saulo de Tarso, José de Arimateia e mesmo o maior de todos, Jesus de Nazaré, possuem a terra de onde vieram em seus nomes. Formados que somos por imigrantes e indígenas que fizeram do Brasil uma grande mistura de gentes e culturas, pode ser muito gratificante descobrirmos quem somos a partir da terra de nossos antepassados.
E nunca é tarde para começar. Eu esperei 40 anos para visitar Alagoas e descobrir que aqui me sinto em casa e que tenho muito em meu jeito de ser das coisas daqui. No final das contas, acabei me descobrindo muito mais alagoano do que imaginava – e me orgulho muito disso.

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