Menu

Ide com e-books por todo o mundo

Os cristãos têm um motivo a mais para mergulhar no livro digital.

Nos idos de 2005, fui convidado pelo governo da França para participar do Salão do Livro de Paris. Passei uma semana na cidade, cuidando do estande da Liga Brasileira de Editoras no maior evento literário francês. Naquela breve rotina diária parisiense, eu passava todos os dias em frente à Librairie Polonaise, ou Livraria Polonesa. Talvez adivinhando o futuro, aquele estabelecimento, fundado em 1831, sempre me chamava a atenção – mas, naqueles dias, nunca encontrei motivo para entrar e perambular pelas estantes de livros sobre temas poloneses ou em polonês.
Oito anos depois, descobri o filósofo polonês Leszek Kołakowski. Já falamos dele neste espaço. Um livro em sua obra me chama a atenção: Cristãos sem igreja, publicado em 1969. Mas não consigo lê-lo: não há tradução para português ou inglês e ele não existe em versão digital. Só restava tentar ler com meu francês sofrível, mas, ainda assim, como adquiri-lo? Foi então que me lembrei da Librairie Polonaise. Finalmente, em uma futura viagem à Cidade Luz, eu teria motivo para entrar na loja!
Na primeira oportunidade em Paris, não perdi tempo. Fui direto à livraria, pedi o livro, mas... não tinha. A livreira, solícita, pediu um minuto, foi ao computador, encontrou o livro no catálogo e, sem eu dizer nada, fez a encomenda. Poucos dias depois, voilá!, lá estava Cristãos sem igreja me esperando. Um calhamaço de 824 páginas, mas nem liguei: que sentimento delicioso que é procurar um livro, contar com um ótimo livreiro e ter o objeto de desejo impresso em suas mãos! Ao sair dali, contudo, um sentimento de nostalgia apertou meu coração: provavelmente, aquela seria a última experiência do tipo que eu teria em minha vida.
Não tenho dúvidas de que o futuro próximo reserva um papel de destaque aos chamados e-books. Os livros físicos, provavelmente, nunca desaparecerão; contudo, perderão cada vez mais espaço para os digitais. Lojas como a histórica e charmosa Librarie Polonaise tendem a desaparecer, e o livro em papel deverá ser um produto de luxo, de nicho; vintage, talvez. Como amante dos livros, já estou saudosista; porém, na condição de amante da leitura, animado. Afinal, a verdadeira revolução do livro digital não está no suporte, mas na distribuição e no acesso. Ler na tela de um Kindle ou Kobo não é um grande avanço em relação ao papel. Agora, comprar um livro sem sair da cama e recebê-lo em um minuto é um salto comparável ao protagonizado por Gutemberg. Neste futuro próximo e quase presente, ninguém mais terá de ir até Paris para comprar um livro, infelizmente. E felizmente!
E o que isso tem a ver com os cristãos? Simples: as novas facilidades digitais da distribuição e acesso a conteúdos e livros oferecem oportunidades fantásticas para que a Igreja siga o mandado divino de pregar o Evangelho a toda criatura de forma muito fácil e com resultados melhores, alcançando grande número de pessoas. Foi-se o tempo de colocar Bíblias em fuscas e contrabandeá-las para a União Soviética, como nosso heroico Irmão André corajosamente fazia. Com a internet e os livros digitais, as fronteiras caíram. Os decasséguis no Japão podem ler os últimos lançamentos literários cristãos em português sem esperar demoradas encomendas pelo correio. Missionários já não precisam aguardar a visita de seminaristas com malas cheias de literatura. Livros multimídia poderão trazer textos, vídeos e músicas mesclados e com conteúdo cristão. E, mais importante – o custo de reprodução de tais produtos é praticamente zero.
Em breve, os clássicos da literatura cristã estarão acessíveis em qualquer celular, como a Bíblia já está, ainda que em soluções ainda não tão ideais. E o que falta? Falta um maior comprometimento do setor literário evangélico com essa ruptura digital. Enquanto grande parte dos editores seculares já entendeu que os e-books são uma oportunidade e não uma ameaça, esforçando-se para digitalizar e disponibilizar seus catálogos, os cristãos ainda estão engatinhando, com honrosas exceções. E estes têm um motivo a mais para mergulhar no digital, além de preservar suas empresas e adaptá-las à nova realidade – praticar a ordem expressa em Marcos 16.15: "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura", disse Jesus. Já pensou se, nos tempos do Mestre entre nós, houvesse livros digitais à disposição de todos na Judeia, em Samaria até aos confins da Terra?

voltar ao topo