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Deus é feliz?

Se Deus é indiferente, como poderia ser um pai amoroso?

Sempre digo que não acredito em felicidade. Issoo mesmo - acho que a felicidade plena, a alegria constante e o regozijo permanente simplesmente são impossíveis no mundo em que vivemos. Acho ainda que tal felicidade plena, que tanto se busca, só poderia acontecer em uma coexistência com a insensibilidade e desprezo. Porque, para ser feliz, é preciso ignorar completamente o sofrimento alheio. Só os loucos e as crianças, na sua ignorância e inocência, é que podem ser plenamente felizes sem serem insensíveis ou egoístas.
Talvez seja chocante ouvir isto de um cristão, mas é como me sinto em relação ao assunto. E foi justamente por isso que o livro Is God Happy? (Deus é Feliz?, Basic Books, 352 pp.), do filósofo polonês Leszek Kolakowski, me chamou tanto a atenção quando o vi em meio às notícias. Afinal, pois eu nunca tinha pensado no conceito de felicidade divina. Um clique levou a outro e eu comprei o livro em sua versão digital para ler no meu Kindle. Trata-se de uma coletânea de ensaios deste ex-marxista que faleceu em 2009. Um terço do livro é dedicado a textos sobre "Religião, Deus e o Problema do Mal", e é nesta parte que se encontra o ensaio "Deus é Feliz?" que dá nome ao livro. Tentei descobrir qual a fé de Kolakowski, mas não consegui. O que se sabe é que ele via a fé e a religião com grande respeito e mesmo admiração. E, ao ler suas palavras, tive a nítida sensação de que este polonês era um homem de Deus.
Ao conhecer o livro e ler o texto, meu primeiro momento de eureca foi perceber que nunca tinha ouvido alguém abordar ou discutir o conceito da felicidade de Deus dentro da Igreja. Talvez nós, cristãos, estejamos mais preocupados com a própria felicidade do que com a divina, sei lá. O segundo momento de descoberta foi quando me dei conta que a Bíblia não menciona a felicidade de Deus e não há texto sagrado que afirme que o Deus é feliz. Há, claro, momentos em que Deus se alegra, se regozija, se agrada etc. Mas procure "felicidade de Deus" ou "Deus é feliz" nos textos sagrados – não há nenhuma menção.
Kolakowski não acredita na felicidade plena de Deus e isto gerou um alívio no meu coração e uma clara identificação na minha mente. "Mas é possível ter consciência do mal e do sofrimento e ainda sim ser perfeitamente feliz?", questiona o filósofo deixando claro qual é a grande barreira para a felicidade. Kolakowski explica ainda que a serenidade perfeita sugerida tanto pelo cristianismo como por outras religiões como o budismo exige a imutabilidade perfeita. "Mas se meu espírito está em um estado de imutabilidade, de forma que nada possa influenciá-lo, minha felicidade será como aquela de uma pedra. E será que realmente queremos afirmar que uma pedra é a representação perfeita da salvação e do Nirvana?, questiona mais uma vez o polonês. "A felicidade como uma condição imutável não nos é acessível, com exceção talvez dos raríssimos casos de verdadeiro misticismo", sacramenta.
Mas e Deus? Não era dele que estávamos falando. Kolakowski não se esquiva:
"Se Ele não é indiferente, mas sujeito a emoções como nós, Ele deve viver em um constante estado de pesar ao testemunhar o sofrimento humano. [...] Se, por outro lado, Ele é perfeitamente imutável, então Ele não é passível de ser perturbado por nossa miséria, sendo, portanto, indiferente. Mas se Ele é indiferente, como poderia ser um pai amoroso? E se Ele não é imutável, Ele participa de nosso sofrimento e sente dor. Em qualquer um dos casos, Deus não é feliz em nenhum sentido que possamos entender."
Estas palavras de Kolakowski são duras, chocantes, mas também profundas, sendo difícil discordar delas. O filósofo termina seu ensaio com o seguinte parágrafo:
"A felicidade é algo que conseguimos imaginar mas não podemos experimentar. Se imaginamos que o inferno e purgatório não estão mais em funcionamento e que todos os seres humanos, todos eles sem exceção, foram salvos por Deus e estão agora desfrutando do êxtase celestial, sem sentir falta de nada, perfeitamente satisfeitos, sem dor e sem morte, então podemos imaginar que felicidade dos seres humanos é real e que as aflições e o sofrimento do passado foram esquecidos. Tal condição pode ser imaginada, mas nunca foi vista. Nunca foi vista."
Mas e agora? Se Kolakowski estiver certo e se nós, assim como Deus, formos incapazes da plena felicidade, para que serve a salvação e o cristianismo autêntico? Honestamente, acho que esta constatação não muda nada e só valoriza ainda mais o papel de Deus e da fé cristã em nossas vidas. Assim como sempre digo que não acredito em felicidade plena, também digo que consigo viver bem, obrigado, sem ela. E acho que isso só é possível pela graça de Deus. Esta mesma graça que nos salva do pecado, também nos salva da eterna tristeza. Nunca seremos eternamente felizes, mas, por outro lado, nunca seremos eternamente infelizes – e, pela graça, nossa vida pode ser marcada por grandes momentos de alegria ao lado de Deus. Ou seja, Deus pode não ser feliz, mas sua graça permite que sejamos felizes ainda que a plena felicidade não exista.

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