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O preço de mudar o mundo

Entrevista com Melinda Gates, bilionária da Microsoft: "Meus filhos sabem que eu oro todos os dias".

Uma “otimista impaciente”. É assim que Melinda Gates se define. Se o sobrenome chamou sua atenção, é isso mesmo: ela é casada com Bill Gates, o magnata da informática, apontado diversas vezes como o maior bilionário do planeta. Mas sua impaciência não se manifesta nas filas de espera dos navios de cruzeiro de luxo e nem nos dias de inauguração das lojas de grife frequentadas pelos super-ricos como ela. Melinda está impaciente é para mudar o mundo. Ela é uma filantropa por excelência, que conjuga a formação cristã adquirida na escola católica feminina que frequentou na infância, em Dallas, o temor a Deus e a capacidade empreendedora. Desde que Melinda e seu marido criaram a Fundação Gates, em 2000, o casal já doou 30 bilhões de dólares (cerca de R$ 100 bilhões) da sua imensa fortuna da Microsoft e do seu grande amigo, o bilionário Warren Buffett.

A fundação iniciou os seus trabalhos no mesmo ano em que a Organização das Nações Unidas anunciou seu programa de metas para o milênio, centrada em oito objetivos globais. Os dois programas têm prioridades em comum, como o combate a doenças, a redução da pobreza extrema e a melhoria da saúde materna. A Fundação Gates tem parceria com muitas outras organizações. Grupos religiosos, incluindo organizações católicas, a Visão Mundial, associações luteranas e o Exército de Salvação, são os principais beneficiários de mais de 125 subsídios da fundação.

Em janeiro deste ano, Melinda e Bill Gates anunciaram que dobrariam a sua dedicação ao combate à pobreza. No entanto, junto com os grandes financiamentos e apostas da fundação, houve muita polêmica. Há três anos, o casal ajudou a lançar a Family Planning 2020, uma tentativa global de disponibilizar métodos contraceptivos artificiais para 120 milhões de mulheres pobres até aquele ano. A fundação – que não paga a realização de abortos – espera gastar um bilhão de dólares em métodos contraceptivos. Isso gerou duras críticas. Em 2012, Melinda Gates se dirigiu publicamente à oposição da Igreja Católica ao uso de anticoncepcionais. Ela disse em uma entrevista que, quando mulheres pobres têm pouco acesso ao planejamento familiar, uma parte da missão cristã, que é a justiça social, deixa de ser realizada. Mesmo assim, Melinda admira o papa Francisco e concorda quando ele diz que a Igreja deve incluir a todos.

“Como podemos fazer com que o planejamento familiar esteja nas mãos da mulher? É preciso fazer com que ela descubra qual é o espaçamento saudável entre as suas gestações”, diz Melinda, nesta entrevista à revista Chriustianity Today. Segundo ela, o tema, espinhoso por natureza, esbarra muito mais na falta de esclarecimento junto às populações-alvo do que nas tradições locais e nos impedimentos de natureza religiosa. Ela conversou com o editor-sênior de Jornalismo Internacional da revista, Timothy C.Morgan, logo após seu retorno de uma viagem à Índia, onde visitou projetos apoiados pela Fundação Gates:

CRISTIANISMO HOJE – O slogan da Fundação Gates, “Todas as vidas possuem o mesmo valor”, veio de sua infância. Quando a senhora teve, pela primeira vez, tal noção?

MELINDA GATES – Eu frequentei uma escola católica durante toda a minha infância, e ia à igreja todos os domingos com a minha família durante esse período. O Novo Testamento me toca. Jesus sempre se dirigia aos pobres, tentando mostrar que eles não eram diferentes das outras pessoas. Essa noção foi enraizada desde cedo em mim. As freiras da minha escola permitiam que nós questionássemos os ensinamentos da Igreja na classe, guiando as nossas discussões. Elas nos ensinaram a servir à nossa comunidade, dizendo que fazer o bem a uma única pessoa podia fazer a diferença.

Já que a senhora falou em Novo Testamento, como vê a sua missão em termos bíblicos?

Para mim, a fé precisa ser acompanhada de ações. Com essa profunda convicção, Bill e eu acreditamos que todas as vidas possuem o mesmo valor. Nós tentamos viver isso em nosso trabalho na fundação. Eu não posso explicar como eu, uma menina de Dallas, que se apaixonou por Bill, está assentada sobre a fortuna da Microsoft. Nós, simplesmente, chegamos à conclusão de que esse dinheiro deveria voltar para a sociedade. Eu realmente sinto que é isso que deve acontecer.

Que tipo de resistência – principalmente, interior – a senhora precisou enfrentar, diante de si mesma, antes de abrir mão de uma quantidade tão grande de dinheiro?

Para doá-lo? Nenhuma resistência. Quando Bill surgiu com essa ideia, era exatamente o que eu gostaria de fazer. A minha reação foi somente a de perguntar quando começaríamos. Aliás, nós já falávamos sobre isso quando estávamos namorando. Passamos três semanas na África e essa experiência mudou as nossas vidas. Nós estávamos em uma pequena ilha perto de Zanzibar [na Tanzânia], caminhando pela praia. Durante aquela caminhada, conversamos sobre as nossas semelhanças e diferenças. A decisão de abrir uma fundação com fins sociais surgiu ali.

Existem alguns pontos de choque entre fundações como a sua e entidades cristãs que têm a missão de pregar o Evangelho. Como equacionar isso?

Nós procuramos pontos de interesse convergente. Tentamos encontrar uma missão que nos comum, seja na área da saúde, saneamento ou agricultura. Assim, trabalhamos juntos nessa área e respeitamos as diferenças de pontos de vista em outras questões. Se há um trabalho sendo feito na área da saúde por algum grupo religioso, eu não tenho problemas com isso – nós financiamos a área da saúde, mas não a área religiosa, e isso é ótimo. Eles, então, procurarão financiadores para a parte religiosa do seu trabalho. Nós, simplesmente, sempre nos concentramos nos pontos em comum.

Nos países em desenvolvimento, temas como planejamento familiar, que a fundação propõe, costumam ser espinhosos – de um lado pela precariedade de recursos, e de outro, pela questão do respeito às liberdades individuais. Qual é a abordagem mais correta para se obter bons resultados?

Eu sei porque existe essa polêmica. Ela decorre do histórico dos programas de planejamento familiar e a forma como as coisas começaram, nos anos 1970, com uma abordagem muito detalhada, o que foi completamente errado. Havia coerção, com certeza. Como podemos fazer com que o planejamento familiar esteja nas mãos da mulher? É preciso fazer com que ela descubra qual é o espaçamento saudável entre as suas gestações. Eu conversei, na Índia, com um grupo de adolescentes, todas casadas. Elas queriam que seus filhos tivessem saúde e aprenderam que, quanto maior o intervalo de tempo entre as gestações, mais chances elas teriam de gerar bebês saudáveis. Se ensinarmos a contracepção às mulheres e deixarmos que elas escolham voluntariamente o que fazer, os resultados serão diferentes. Em todos os projetos de planejamento familiar, nós estamos tomando cuidados simples, como o de saber se o uso do método contraceptivo está sendo forçado de alguma forma. Precisamos garantir que não haja nenhum tipo de coerção.

Como a senhora concilia o choque entre sua defesa à contracepção artificial e os dogmas da Igreja Católica, que se opõe consistentemente a isso?

Eu sou católica; portanto, precisei refletir bastante antes de decidir falar sobre planejamento familiar. Também conversei com meus pais e filhos sobre a minha vontade de defender essa questão. Na verdade, percebi que se trata de salvar a vida de milhões de mulheres e crianças. Todas as mulheres deveriam ter acesso à informação sobre o intervalo de tempo entre as gestações e sobre métodos contraceptivos, se elas assim desejarem. Se a fé ou os valores de uma mulher fizerem com que ela não queira usar contraceptivos, nós respeitamos a sua decisão – e esta é parte da razão pela qual nós acreditamos tanto no planejamento familiar voluntário. Também é a razão pela qual nós apoiamos vários métodos diferentes de planejamento familiar, como os não hormonais e os métodos de conscientização da fertilidade natural, que ajudam os casais a identificar os dias férteis da mulher, quando é mais provável que ela engravide. Eu concordo com o papa Francisco quando ele diz que a Igreja deve ser “uma casa para todos, e não uma pequena capela”. Sinto-me encorajada pela atenção dada pelo papa aos pobres e espero que ele continue a ressaltar a importância do combate à pobreza no mundo inteiro. Nesse aspecto, nós temos uma agenda em comum.

Em sua opinião, quais são os maiores fatores que desencadeiam a pobreza?

O problema contra o qual quero que avançemos mais rapidamente é a agricultura. Ainda estamos trabalhando em vacinas, mas nós agora temos um sistema para isso. Na área da agricultura, ainda estamos aprendendo como realizar uma mudança global, como pegar as coisas boas da revolução verde que aconteceu em outras partes do mundo e levá-las para lugares como a África. Ainda temos um longo caminho a percorrer.

Nos últimos anos, alguns críticos têm dito que a ajuda externa cria dependências nocivas. O que a senhora pensa em relação a essas críticas?

Elas não são corretas, pelo que vemos em países que saíram da pobreza. A Coréia do Sul é agora uma nação doadora, em vez de beneficiária. Nós falamos sobre aquilo que vemos que funciona, aquilo que traz melhoras na economia e na sociedade. A melhor maneira de se responder a essas críticas é mostrando aquilo que funciona e porque funciona, e mostrando o nosso otimismo diante da realidade. Eu tento ser humilde ao realizar esse trabalho. Nós trabalhamos através de algumas organizações que já estão naquele terreno. Uma organização que eu visitei na Índia, por exemplo, reúne grupos de autoajuda sobre agricultura e meios de subsistência. Todas as pessoas que trabalham nessa organização são indianas, e são elas que estão propagando a mensagem. Essa é uma maneira muito mais aceitável e culturalmente apropriada, e é assim que devemos fazer o nosso trabalho, através de parcerias.

Há lugares onde a ajuda nunca funcionou muito bem. O Haiti, por exemplo, já recebeu bilhões de dólares em ajuda e parece nunca melhorar…

É preciso que exista um bom governo em um país para que ele tenha progresso. Alguns países são mais fáceis para se trabalhar do que outros. Bill e eu tentamos realizar mudanças apenas dentro desses sistemas. São lugares onde sentimos que temos recursos e conseguimos causar um impacto. Lugares onde há conflitos e governos instáveis são difíceis. Nós, normalmente, não trabalhamos nesses locais – apenas em relação a programas de vacinação, já que, pelo menos, conseguimos entregar as vacinas nesses países. Mesmo em tempos de instabilidade, eles interrompem até guerras para permitir que os vacinadores entrem e façam o seu trabalho.

Em quinze anos e depois de gastar 30 bilhões de dólares em programas da fundação, a senhora é capaz de identificar onde houve falhas?

Eu darei apenas um exemplo, embora tenhamos muitos. Nós fazíamos parte de um grupo que tentava acabar com os moradores de rua no noroeste do Pacífico – um objetivo fenomenal. Estávamos construindo moradias provisórias especialmente para as mulheres e crianças, que perdiam suas casas com bastante frequência. Só que não fomos capazes de construir unidades provisórias de moradia suficientes. Chegamos à conclusão de que, se quisermos acabar com moradores de rua, precisamos nos concentrar nas causas, descobrindo uma forma de prevenir que as pessoas percam suas casas e acabem nas ruas. Trabalhando dessa maneira, teremos muito mais sucesso.

E qual foi uma grande realização a se destacar?

A Gavi Alliance. Desde 2000, existem 6 milhões de crianças vivas graças a esse fundo de vacinação. Através dele, alcançamos a cifra de centenas de milhões de crianças vacinadas e cinco vacinas novas que não existiam antes. Duas delas são para diarreia e pneumonia, que estão entre as maiores causas da mortalidade infantil ao redor do mundo. Sentimos, portanto, que esse foi um grande sucesso do nosso trabalho e parte da razão pela qual a mortalidade infantil mundial caiu substancialmente desde 1990.

Muitas mulheres e crianças, em países de maioria muçulmana, enfrentam vidas sombrias e desfrutam de poucos direitos humanos. Trata-se de um problema religioso ou de alguma outra coisa?

Eu não diria que se trata de uma questão religiosa, mas sim, de uma questão de tradição. Sempre que tentamos dar autonomia às mulheres, precisamos mudar a mentalidade sobre o que as elas são capazes de fazer. Um país que está fazendo isso é o Níger, que tem uma população de maioria muçulmana com a maior taxa de fecundidade do mundo. Só que o Níger não está trabalhando com as mulheres, e sim, instruindo os homens, explicando-lhes como uma quantidade maior de seus filhos será capaz de sobreviver se eles permitirem que as suas mulheres deem um intervalo de tempo entre as gestações de seus bebês. No fim das contas, esses homens querem que seus filhos sobrevivam. É preciso, portanto, abordar essa questão de uma maneira benéfica para o pai a fim de que, em seguida, ele permita que a sua mulher seja instruída sobre a contracepção e passe a tomar decisões diferentes.  Um ponto promissor são os grupos de autoajuda. Atualmente, na Índia, há três milhões de mulheres participando desse sistema. O objetivo do governo é a criação de 70 milhões desses grupos no país. Há poder quando as pessoas se unem e fazem planejamentos como comunidade.

O diálogo, tantas vezes deixado de lado nessa relação entre ajudadores e beneficiários, é fundamental, então?

O sociólogo americano Nicholas Christakis fala sobre redes sociais de comportamento. Se atingirmos a raiz da rede em vários locais, em vez de apenas os seus nós, seremos capazes de espalhar as coisas, já que sabemos que afetamos bastante uns aos outros em relação a comportamentos. As mulheres fazem parte de todos os tipos de grupos sociais. No Níger, elas me diziam: “Nós conversamos quando os nossos bebês nascem. E conversamos enquanto moemos milhete, todos os dias”. Elas já fazem parte de suas próprias redes sociais; só precisamos, então, descobrir como iluminar essas redes com novas mensagens.

Qual foi a maior mudança espiritual que a senhora percebeu em si mesma depois que se envolveu com essa obra?

Eu estou vivendo a minha fé através de ações todos os dias. Mesmo nos dias em que eu não vou à fundação, eu leio algo sobre ela. Quando Bill e eu saímos para jantar, metade de nossas conversas é sobre as crianças e a outra metade, sobre a fundação. Nós estamos dando o nosso melhor para tentar realizar uma mudança no mundo. Foi essa mudança que a fundação fez em mim. Não que eu não tivesse fé antes; eu tinha, e ainda tenho, uma profunda fé. Eu me lembro daquelas mulheres que conheci em países subdesenvolvidos e carrego as suas histórias e as suas vidas em minha mente. Eu tenho uma linda imagem de uma das mulheres que conheci na África que está pendurada em um lugar de minha casa por onde eu sempre passo. Ela me lembra de ser profundamente grata por tudo que eu tenho. Nós queremos um mundo justo para todas as pessoas. Não importa se elas vivem nos Estados Unidos, no Quênia ou em Bangladesh; nós precisamos estar todos no mesmo barco. Há uma passagem do evangelho de Lucas que diz que não devemos colocar a luz debaixo da mesa. Devemos colocá-la em um lugar onde todos possam vê-la. Nós, da Fundação Gates, estamos tentamos iluminar o mundo, mostrando os seus problemas e desigualdades para que outras pessoas também sintam esse chamado. Eu mostro exemplos do que funciona e o otimismo que isso traz. Parte disso acontece porque eu sou mãe.

Sim, a senhora é mãe, e muitos pais cristãos sonham em passar a sua fé para os seus filhos. Como a senhora faz isso?

Eles frequentaram a escola dominical e um deles até frequentou uma escola católica. Os meus filhos estão mais velhos, agora: tenho uma filha de doze anos, outro de quinze, e uma filha que já está na faculdade. Muitas vezes, durante o jantar, nós discutimos em família tudo aquilo que víamos nos países subdesenvolvidos. Nós temos essa crença na fé através de ações. Meus filhos sabem que eu oro e medito todos os dias. Na verdade, às vezes eles até implicam comigo por eu não gostar de ser interrompida durante meus momentos particulares na parte da manhã – mas eles nunca poderão negar que me veem viver a minha fé e os meus valores bem diante dos seus olhos.

(Tradução: Julia Ramalho)

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