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Entrevista com Marcelo Camurça

Para o professor, a aculturação da fé tem feito surgir uma nova forma de ser cristão.

O professor Marcelo Ayres Camurça Lima, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), é um dos mais reconhecidos estudiosos brasileiros do assunto. Doutor em Antropologia e com estudos de pós-doutorado na Universidade de Sorbonne, na França, ele analisa a religiosidade brasileira com rigor científico – mas, ao mesmo tempo, não despreza a importância do saber religioso na compreensão deste fenômeno. Nesta conversa com CRISTIANISMO HOJE, Camurça fala sobre o processo de crescimento do segmento evangélico no país e suas variações nos últimos anos e analisa o que a Igreja Evangélica tem sido como ator social. Apesar de considerar que o que chama de um “estilo evangélico” já tem grande influência na sociedade, o pesquisador aponta um importante elemento sincrético que atrai o fiel para o que antes se considerava coisa mundana: "Cola-se o selo 'gospel' ou 'de Jesus' em qualquer atividade e esta pode ser sacralizada e purificada de seu conteúdo profano."

CRISTIANISMO HOJE – A última reportagem de capa de CRISTIANISMO HOJE abordou o declínio do crescimento do número de evangélicos no Brasil e o crescimento paralelo dos chamados “sem religião”. Qual a relação entre um fenômeno e outro?

MARCELO CAMURÇA – De fato, houve um decréscimo no ritmo do crescimento do segmento evangélico, que em 2000 foi de 120% e, em 2010, de 62%. No entanto, é numa perspectiva comparada entre o grupo dos “sem religião” que essa desaceleração pode ser mais visivelmente notada – em 2000, estes alcançaram a expressiva taxa de 7,28%; mas, dez anos depois, cresceram apenas um ponto percentual, chegando a oito por cento. Na verdade, não partilho dessa análise de um declínio do crescimento evangélico. Este grupo (agregado) religioso cresceu dos 15,4% da população verificados no Censo de 2000 para 22,2% no de 2010, ou seja, de 26 milhões de pessoas para 42,2 milhões em 10 anos. Mas, de toda essa “dança” de percentuais, penso que o que deve ser remarcado neste Censo de 2010 foi o que ocorreu com o catolicismo. Não se trata de uma redução no crescimento; muito mais que isso, é uma queda acelerada, de 73,8% para 64,6% em uma década. Em dez anos, houve a perda de 1,6 milhão de adeptos, o que dá cerca de 465 pessoas por dia.

Por que esta queda no número de católicos chamou tanto a atenção dos pesquisadores?

Porque, pela primeira vez entre as quedas sucessivas do catolicismo nos últimos recenseamentos, esta se deu de forma absoluta, ou seja, a população cresceu 12,3% e o número de católicos diminuiu em 1,4% no período.

Levando-se em conta que as igrejas evangélicas só recentemente passaram a ser atores sociais de destaque, que tipo de legado e influência desse grupo já se pode perceber na sociedade brasileira?

Sem emitir juízo de valor, é evidente a influência de um “estilo evangélico” na sociedade brasileira atual: na política, com sua representação parlamentar; na mídia, com suas rádios e TVs. Isso redunda em um estilo de vida e de consumo cada vez mais difundido. Esse grupo, que nos anos 1950 e 60 via-se como apartado do “mundo”, tomando-o como lugar de pecado, a partir dos anos 80 resolve inserir-se nele e convertê-lo através de um mimetismo curioso: cola-se o selo “gospel” ou “de Jesus” em qualquer atividade e esta pode ser sacralizada e purificada de seu conteúdo profano – e, o que é importante, liberada para a prática evangélica. São os “atletas de Cristo”, o “samba gospel”, o “acarajé de Jesus” etc. Enfim, tudo que é da sociedade pode ser convertido para uma rubrica evangélica. E qualquer um pode viver o estilo de vida moderna com a particularidade evangélica. Esta é, sem dúvida, uma fórmula de sucesso, e que está se disseminando no país.

Que transformações essa massificação de signos tem trazido à fé evangélica?

Imagino o incômodo de um protestantismo mainstream, formado nos princípios de sola fides, sola escriptura e da livre relação do indivíduo com Deus, diante dos rituais do “sapatinho de fogo” ou das fogueiras santas da Igreja Universal do Reino de Deus. Penso que este protestantismo liberal, que tantas contribuições trouxe à modernidade e à liberdade individual – com repercussões ecumênicas e politizadas – é amplamente minoritário, hoje, no país. O que prevalece é um modelo norte-americano, reinventado e temperado através do sincretismo e do jeitinho brasileiro de Edir Macedo, Silas Malafaia, Renê Terranova, Estevam e Sônia Hernandes. Isso, juntamente com as ideias trazidas pelas teologias da prosperidade e da confissão positiva – onde o que prevalece é a ideia de um indivíduo otimista, fadado ao sucesso e sem medo do consumo, e até por isso abençoado – é uma reentrada no espírito do capitalismo bem diferente da austeridade descrita por Weber.

Quando o IBGE aponta a presença de 22,2% de evangélicos na população brasileira, o que isso quer dizer exatamente, já que se trata de um universo tão amplo e diversificado?

Uma interpretação inovadora que se pode fazer a um dado trazido neste último Censo do IBGE é aquela que se debruça sobre a declaração de um segmento da população que se disse apenas “evangélico”, e não pertencente a uma igreja em particular. Este grupo, classificado como “evangélico não determinado” (aquilo que já havíamos nomeado como “cristão não determinado” em 1990) alcançou um percentual de 4,8% (9,8 milhões de pessoas), superando os protestantes históricos, na faixa dos quatro por cento, e só sendo ultrapassado pelos pentecostais (13,3%). Com certeza, é uma circulação sem pertença exclusiva, mas restrita ao meio evangélico. O que significa este segmento, que já é contabilizado como o segundo mais numeroso do universo evangélico? Um evangélico “não praticante”, semelhante ao que ocorre no meio católico? Ou um evangélico “não institucionalizado”, como aqueles que realizam o trânsito religioso? O grupo evangélico será cada vez mais plural e menos marcado pela pertença confessional, internamente. E mesmo as ditas grandes confissões, como Assembleia de Deus e Batista, seguem esse padrão de pluralidade e competição interna.

Para o senhor, as igrejas, tais como as conhecemos hoje, podem entrar em decadência nos próximos anos?

A sociologia contemporânea já apontou a crise das instituições em geral: família, escola, partidos, sistema judicial etc. As instituições religiosas não poderiam faltar à regra, enquanto organismos sociais que são. A sociologia da religião também vem falando do movimento de desinstitucionalização religiosa e da self religion, vivida pelo individuo que faz sua própria religião e transita por várias confissões, sem pertença exclusiva. De fato, as instituições religiosas já não se configuram, como há anos atrás: procuram, porém, se reciclar ao “espírito da época” – e fazem isso buscando incorporar a cultura das redes, da internet, das mass media, flexibilizando suas estruturas. Há, sem dúvida, uma tendência de crise das igrejas ditas históricas. Mas, por outro lado, vemos surgir concomitantemente nichos extremamente libertários e arranjos autoritários nestes sucedâneos das instituições formais. Além disso, acontecem transformações muito radicais no seio destas instituições seculares e milenares. É um quadro complexo.

Os sem religião, que já somam cerca de 15 milhões de brasileiros, são chamados por Ricardo Mariano de terceiro maior “grupo religioso” do país. Deve-se creditar o fato apenas ao crescimento do secularismo no Ocidente ou há características próprias da atual sociedade brasileira que o justificam?

Uma das características já apontadas pelos estudiosos é que este segmento “sem religião” diz mais respeito ao processo de desinstitucionalização religiosa, ou seja, perda de poder de atração das igrejas, do que de descrença agnóstica e ateia. Seriam os crentes sem pertença, aquilo que a socióloga Gracie Davies chamou de believe but not belong [em tredução livre, “acreditar sem pertencer”]. Seriam estes que fazem o percurso do trânsito por entre os núcleos religiosos. Mas outra questão que observei a partir dos dados deste último Censo é que este segmento sem religião, que supúnhamos conter apenas o indivíduo jovem, urbano e de classe média, é muito mais alargado. Eles crescem nas mesmas áreas onde também proliferam os pentecostais, quais sejam, zonas de migração interna do país: periferias das grandes áreas urbanas do litoral e frentes de ocupação agrícola e mineral do Norte e Centro-Oeste do país.

O que isso pode significar?

Que a tendência a uma aceleração do crescimento deste grupo é uma realidade bastante provável. Pobreza, migração e baixa colocação na escala social podem levar ao caminho pentecostal como estratégia de sobrevivência e de sentido para a vida, mas também ao indiferentismo religioso. Esta é uma hipótese ainda a ser verificada, mas penso que, com relação aos “sem religião” jovens, pobres e migrantes, a ocupação de todo seu tempo na luta pela sobrevivência e minoração de sua condição de desfavorecidos podem levar a um processo secularizante de afastamento da ambiência religiosa. Teríamos então, para os indivíduos nesta situação: duas alternativas: o pentecostalismo ou a opção sem religião.

Em seu trabalho Entre sincretismo e guerras santas, o senhor fala que uma tendência no Brasil seria em relação à construção de estruturas religiosas cada vez mais semelhantes umas às outras e uma “padronização cada vez maior da oferta de bens religiosos”. O passo seguinte seria um modelo ecumênico?

O que especulei no trabalho mencionado é que, devido ao sincretismo enraizado na cultura religiosa do país como estrutura de longo curso – o que autores como Bittencourt Filho chamaram de matriz religiosa brasileira –, mesmo ações de intolerância e violência religiosa explícita não redundariam em “guerra santa”, mas seriam atenuados pelo clima religioso geral da frequência comum ao catolicismo, candomblé, espiritismo etc. Acho que o clima sincrético-religioso do Brasil não resulta no modelo ecumênico clássico, mas em uma acomodação e proximidade entre as crenças, talvez um “ecumenismo popular” de que nos falava Carlos Rodrigues Brandão nos anos 1980. Esta acomodação é marcada por um clima de familiaridade entre as religiões.

Mas tem havido casos de intolerância religiosa que redundam em violência verbal e até física.

A despeito de nosso formato sincrético histórico tender a acomodar as diferenças religiosas, podemos estar correndo o perigo do esgarçamento a ponto de produzir rupturas no tecido social-cultural religioso. Temos casos atuais cada vez mais explícitos de confrontação religiosa, como os de expulsão de terreiros dos morros cariocas por ações de traficantes influenciadas por campanhas neopentecostais ou agressões, como a recente pedrada em uma menina adepta do Candomblé – ou, do outro lado, agressões a evangélicos, como num caso em São Paulo, estigmatizados como necessariamente fundamentalistas e preconceituosos. Neste caso, mais do que nunca a idéia de diálogo inter-religioso se faz necessária.

Até que ponto uma graduação em Ciências da Religião poderia colaborar na formação de uma liderança cristã mais preparada para entender o mundo em que vive e fazer as necessárias reflexões sobre e prática da fé?

Sem querer ter aqui uma postura iluminista, enaltecendo o saber científico como panaceia e desqualificando outros saberes, acredito que as Ciências da Religião, enquanto um campo de conhecimento interdisciplinar (que articula a História, Sociologia, Antropologia, Psicologia, Filosofia, Teologia etc), numa perspectiva não confessional e não apologética, pode contribuir para uma compreensão menos envolvida da religião. Isto, ao incorporar todas estas mediações (históricas, culturais, sociais, psicológicas, filosóficas) contidas no fenômeno religioso. Sem ser dirigida necessariamente apenas a religiosos, mas a todos os cidadãos interessados no fenômeno religioso, porque constitutivo – entre outros – do mundo em que vivemos, penso que as Ciências da Religião podem exercer um papel “civilizatório”. E, também, um rico espaço de diálogo com cosmologias e teologias desenvolvidas nos ambientes religiosos.

Muitos cristãos temem que o excesso de saber acabe provocando o afastamento da fé...

É simplista e errônea aquela anedota de que um religioso convicto, ao cursar as Ciências da Religião, ou abandona a religião ou larga o curso. A experiência pode ser iluminadora para ambos os lados; inclusive, porque não existem profissionais, pesquisadores e docentes em Ciências da Religião imunes à crença religiosa. Da mesma maneira, alunos religiosos podem compatibilizar os saberes e mediações da realidade captados pelo viés dos estudos sobre religião com sua crença pessoal.

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