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Homenagem póstuma ao Pr. Enéas Tognini.

Entrevista especial: “Precisamos aprender a deixar o conforto e arriscar com fé”.

Acompanhado pela filha e assessora, Dinéa, Enéas Tognini recebe a reportagem de CRISTIANISMO HOJE em sua casa, no bairro paulistano de Perdizes. A fala já não tem o fluxo de outrora, e, por vezes, a memória  lhe trai. Não é para menos – o pastor completa, este mês, um século de vida. É isso mesmo: Enéas Tognini, o líder religioso que tem seu nome ligado à história dos batistas brasileiros, é também um ícone do Evangelho no país. Foi ele que, há coisa de 50 anos, percorreu o país pregando uma mensagem que nada tinha de nova, mas que andava adormecida em muitas igrejas da época: a de que a obra do Espírito Santo não ficou restrita aos tempos apostólicos e que os dons carismáticos estão à disposição de todo aquele que crê. Por essa cruzada avivalista, Tognini enfrentou problemas em sua denominação e uma boa dose de incompreensão. Porém, não esmoreceu. “O batismo com o Espírito Santo transformou a minha vida”, diz.

Nesse mesmo fogo, Tognini construiu um frutífero ministério que culminou com a fundação da Convenção Batista Nacional, entidade que hoje conta com mais de 1,3 milhão de fiéis e 7 mil igrejas. Foi ele, também, que criou a Igreja Batista do Povo, uma das mais dinâmicas e conhecidas congregações de São Paulo. Hoje pastor emérito, Enéas Tognini é querido e respeitado não apenas por suas ovelhas, mas por todos os evangélicos brasileiros, que reconhecem seu legado de fé e visão de Reino de Deus. Apesar da idade para lá de avançada, ele mantém-se ativo, tanto em termos espirituais como intelectuais, e não se faz de rogado quando o convidam para compartilhar a Palavra de Deus. “Não mudei em nada; apenas permaneci na Palavra”, é a síntese que faz de sua vida. Modéstia, claro. Enéas Tognini, ainda vivo e ativo, tem um rico legado a oferecer. “O que precisamos aprender, como um todo, é a deixar o conforto e arriscar com fé”, pontifica, do alto de seus 100 anos.

CRISTIANISMO HOJE – No final dos anos 1950 e ao longo dos 60, o senhor foi um dos líderes daquele que, provavelmente, foi o maior avivamentos da história da Igreja brasileira. Peço que olhe para a situação da Igreja no Brasil, hoje, e faça uma análise comparativa.

ENÉAS TOGNINI – O atual momento é de incerteza. Por um lado, temos um decréscimo do catolicismo e um grande crescimento protestante. Mas, por outro, há todos os problemas que esse tipo de crescimento rápido e sem preparo traz: pouco conhecimento da natureza do Evangelho e falta de renúncia e entrega da vida a Cristo. Falta, também, compromisso com a Palavra; e muitos crentes acabam se inclinando para o personalismo, para o erro e as heresias. Conhecemos essa história desde os primeiros anos do Cristianismo. Crescer é necessário; mas, sem alicerce, traz prejuízo. No nosso país, temos os dois tipos de crescimento: o saudável e o tóxico.

Qual a diferença?

Há um crescimento que é mero inchaço, algo como uma “bolha”, pois as pessoas que vêm para a fé não permanecem, acabam saindo logo. Quando esse tipo de crescimento prevalece, o problema é grande. Fora isso, há coisas que me deixam esperançoso quanto ao presente e o futuro da Igreja, e este é o bom crescimento. Nos últimos anos, as igrejas parecem mais engajadas, principalmente, nos trabalhos sociais. O cuidado e a responsabilidade com os pobres estão muito mais presentes hoje do que antigamente, por meio de diversos tipos de programas, projetos e instituições criadas pelas igrejas.

Muitos consideram o neopentecostalismo o principal responsável pelo grande crescimento da Igreja Evangélica, hoje. O senhor acha que é isso mesmo?

Em parte, sim. Hoje, temos um uso muito grande da mídia – porém, com uma mensagem distorcida e mercantilizada da fé. Bênçãos são oferecidas em troca de dinheiro. É uma visão mercantil, distorcida da fé. O alvo é, assim, trocado pelo que deveria ser uma consequência. Com o crescimento, é natural aumentar as receitas das igrejas; só que estão buscando, em primeiro lugar, mais dinheiro, e não o Reino de Deus, e essa relação monetária é perigosíssima. Mas, nem todas as igrejas neopentecostais cometem abusos. Algumas andam segundo a Palavra. A realidade é que o sucesso aparente e fácil de alguns tem influenciado todo tipo de igreja. Isso preocupa, porque o trabalho não pode ser mantido sem dinheiro. E qual é a solução para o dilema? Precisamos voltar à Palavra de Deus, anunciar o verdadeiro Evangelho e confiar mais no Senhor.

Essa volta à Palavra passa, necessariamente, pelo preparo da liderança? 

Sem dúvida. Por isso, fundei três seminários: a Faculdade Teológica, em São Paulo; o seminário de Belo Horizonte, que não existe mais; e o Seminário Batista Nacional, que leva meu nome. Preparar homens e mulher para fazer o santo serviço continua sendo o mais importante – e não me refiro apenas a preparo e entendimento teológico, mas de levá-los a ter experiências com Deus e um caráter transformado. Jesus deu ênfase ao discipulado, ao ensino. Ele foi um Mestre até quando fi à cruz – Pilatos achou que o estava julgando, mas, na realidade, estava era sendo julgado pela Palavra. O Cristianismo deve ser ensinado, mas, em geral, as igrejas não estão investindo o suficiente nisso. O analfabetismo, principalmente da Palavra, permanece alto, ainda. Veja como as coisas mudaram: hoje, há mais obras teológicas de relevância, como léxicos, por exemplo, sendo produzidas por pentecostais. Os batistas ficaram para trás nessa questão, e isso não é bom. Temos boas instituições de educação, mas não é o suficiente. Precisamos voltar à Palavra e formar homens não apenas com conhecimento, mas de valor.

O movimento que o senhor protagonizou, com os chamados Encontros de Renovação Espritual, foi uma ousadia para a época. Faltam iniciativas de ousadia espiritual, hoje?

O que precisamos aprender, como um todo, é a deixar o conforto e arriscar com fé. Ouvir e fazer a vontade de Deus. Antes de receber o batismo no Espírito Santo e trabalhar na renovação, o Senhor me desafiou a buscá-lo acima de qualquer outra coisa. Na época, eu era um renomado líder de minha denominação, pastor da Igreja Batista de Perdizes, diretor do Colégio Batista Brasileiro e da recém-inaugurada Faculdade Teológica. Em tudo que acontecia na denominação, pediam meu parecer. Então, Deus me desafiou a entregar todos os ídolos que dominavam meu coração e que me impediam de depender totalmente dele. Quando obedeci, vi sua poderosa mão em ação.

Então, o senhor nem sempre foi um entusiasta da obra do Espírito Santo?

Isso mesmo. Eu até evitava participar de eventos em que ficassem falando de renovação espiritual e essas coisas. Gostava de ler os livros e folhetos da missionária norte-americana Rosalee Mills Appleby, mas não concordava em uma vírgula com o que o pastor José Rego do Nascimento, fundador da Igreja Batista da Lagoinha [em Belo Horizonte], dizia sobre as experiências com o Espírito Santo. Mas, em 1958, ambos foram convidados para falar durante o Congresso da Mocidade Batista do Sul do Brasil. Como pastor e diretor do Colégio, eu precisava estar presente. Apreciei as mensagens de Appleby e torci o nariz para as pregações de Nascimento – pelo menos, até o penúltimo dia. De repente e sem motivo aparente, uma flecha divina entrou no meu coração e fui quebrantado. Deixei o local chorando, e, mesmo no ônibus, não conseguia segurar as lágrimas. Não tive alternativa, senão, fazer um estudo sincero e profundo do assunto. Descobri que a mensagem dos avivalistas era bíblica e que o batismo no Espírito Santo precisava ser buscado. Recebi essa segunda bênção, como muitos dizem, no mesmo ano. Mas não sem antes entregar tudo a Deus; o pastorado da igreja, a direção das instituições, minha biblioteca com mais de 4 mil volumes e a provisão das minhas necessidades e as da minha família.

O senhor foi perseguido por isso?

Fomos perseguidos barbaramente, e o preço pago foi bem alto. Acabamos banidos de todos os trabalhos realizados pela igreja e pelas demais denominações tradicionais. As calúnias eram constantes. Mas a obra era de Deus, tanto que não para de crescer até hoje.

O que mudou em sua vida com o batismo no Espírito Santo?

O batismo no Espírito Santo concede poder ao homem, mas também o aproxima mais de Deus. Temos de ser sensíveis para ouvir sua voz e buscar sua direção. Naquele tempo, houve diversas mudanças em minha vida – inclusive a mais sentida, que foi o falecimento da minha primeira esposa. Mas recebi novos e decisivos direcionamentos da parte de Deus. Minha missão na Convenção e na renovação estava concluída e Deus me levou a um novo desafio, pois sempre precisamos ter nossas raízes numa comunidade local. Essa decisão se mostrou acertada, pois hoje a Igreja Batista do Povo [fundada por Tognini em 1981] cresceu muito e se tornou não apenas uma grande igreja, mas uma comunidade de grande influência, abrindo novos trabalhos em diversos lugares e influenciando outras igrejas em todo País. Com tudo isso, não mudei em nada; apenas permaneci na Palavra.

Existe, ainda, um antagonismo entre os crentes pentecostais e os tradicionais?

Aquela enorme divisão tem sido superada. Mesmo os batistas estão cada vez mais unidos. Finalmente, houve o entendimento de que nunca deixamos de ser batistas, de que precisamos do poder de Deus em ação e de que respeito e tolerância são essenciais. Tanto que, recentemente, os tradicionais realizaram um retiro de pastores e o presidente da Convenção Batista Brasileira veio pessoalmente insistir para eu que participasse. O Senhor é maravilhoso!

Pastor, do alto de seus cem anos, o senhor acha mais fácil ser crente, hoje, do que há 50 ou 60 anos atrás?

Não, não acredito que ser crente é mais fácil, hoje. Acho que é até mais difícil, pois o risco do erro e o mundanismo são cada vez mais fortes. Talvez, o tipo de luta e de perseguição tenha mudado, mas a Palavra não muda: e ela diz que o diabo, nosso inimigo, continua nos provocando. Todo aquele que estiver na Palavra continuará enfrentando lutas – e isso colabora para o bem da pessoa, já que são as lutas que nos ajudam a crescer espiritualmente.

Qual o grande legado de sua vida?

Creio que a mensagem que preguei, sobre a renovação espiritual, foi muito importante e sempre será atual, pois é uma necessidade para a Igreja. Mas, não estou velho. Estou apenas com 100 anos (risos). Comparado aos heróis da fé bíblicos, isso não é nada; sou um jovem.

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