Menu

A chama ainda arde

Legado de grandes eventos como os encontros de Lausanne e o Congresso Brasileiro de Evangelização permanece vivo.

Era para ser apenas um encontro de evangélicos. O Congresso Brasileiro de Evangelização, realizado em Belo Horizonte (MG) entre 31 de outubro e 5 de novembro de 1983, reuniu a nata pensante e atuante da Igreja da época. Eles viviam em um outro Brasil, ainda nos estertores do regime militar, em plena "década perdida" – como os anos 1980 entraram para a história devido à estagnação econômica do período – e com uma comunidade evangélica que não ultrapassava 7% da população; hoje, chega a quase 23%. Para que o Brasil e o mundo ouçam a voz de Deus, o tema escolhido, foi o brado de uma Igreja que percebia seu papel como potencial celeiro missionário do mundo – um reflexo quase dez anos depois, de outro evento, este global, que mudou a trajetória do Protestantismo: o Congresso Mundial de Evangelização, realizado na cidade suíça de Lausanne em 1974 com o apoio de um pool de entidades cristãs, como a Associação Evangelística Billy Graham e Christianity Today. Ali, foram lançadas as sementes do chamado Evangelho integral, uma abordagem da fé cristã que vai ao encontro do ser humano na plenitude de suas necessidades. Agora, às vésperas trigésimo aniversário de CBE I e dos quarenta anos de Lausanne-74, o legado dos dois eventos é passado em revista. Se, antes, a Igreja ia ao encontro do perdido apresentando-lhe uma fé que exigia renúncia quase completa a esta vida e projetava a plenitude apenas para o póstúmulo, depois o discurso cristão mudou muito. Ainda que a pregação da santidade e da espiritualidade tenha se mantido nos conformes bíblicos, uma abordagem muito mais contextualizada da caminhada com Cristo emergiu dali. Já não bastava ganhar almas para o Senhor; era preciso, também, estender a mão ao necessitado, influenciar a cultura, preservar a Criação e contextualizar a Palavra de Deus. Hoje, contudo, já não se fala em missões como naquele tempo; a modernidade e o secularismo vêm cobrando alto preço da fé; e a agenda contemporânea faz os crentes, muitas vezes, preocuparem-se mais com o próprio bem estar do que com o anúncio profético do Reino de Deus. "O ano de 1983 pode parecer muito distante para grande parte da atual geração de evangélicos. Mas o Congresso Brasileiro de Evangelização foi um evento profundamente marcado pela presença e ação do Espírito de Deus", aponta o pastor luterano Valdir Steuernagel, protagonista do CBE I e um dos principais disseminadores da ideia da missão integral no país. Dirigente da Aliança Cristã Evangélica Brasileira, Steuernagel destaca que o CBE I aconteceu sob a inspiração tanto de Lausanne como do Congresso Latino-Americano de Evangelização, em 1979, em Lima (Peru). "A fé passou a ser vista em sua inegável dimensão política e social, que deve ser vivida comunitariamente e de tal forma que o testemunho de Cristo seja transformador da nossa sociedade."

"PRIMAVERA"
"O meu sentimento sobre congresso de 1983 foi que nós experimentamos a 'primavera'. A Igreja Evangélica tinha dons maravilhosos e pessoas cooperando umas com as outras. Foi uma luz, um momento fugaz, mas nunca esquecido", comenta o pastor Key Yuasa, líder da Igreja Evangélica Holiness e outro participante do histórico congresso. A ele se seguiram outros encontros do gênero, como CBE II, em 2003, as seis edições do Congresso Brasileiro de Missões (CBM) e diversas iniciativas nacionais e regionais que fomentaram o surgimento de agências missionárias e organizações paraeclesiásticas. "Creio que uma das principais contribuições dos congressos como os que foram organizados pelo Movimento de Lausanne é a de ajudar a própria Igreja a olhar para si mesma e fazer uma autocrítica, perguntando-se se está realmente guardando o caminho do Senhor e andando em retidão e justiça", salienta o pastor Marcos Amado, missionário de Servindo Pastores e Líderes (Sepal) e diretor para a América Latina do Movimento Lausanne. Ele considera o conteúdo do Pacto de Lausanne como atemporal. "Naquela realidade, Lausanne-74 foi uma revolução sem precedentes na história contemporânea da Igreja. Há dois anos, realizou-se a terceira edição do evento, na África do Sul, em contexto completamente diverso". Mesmo assim, ele diz, as mudanças não interferem na autoridade da Bíblia, na universalidade de Cristo e na responsabilidade social do cristão. Amado acena com a possibilidade da realização, ano que vem, de uma consulta com líderes da Igreja brasileira para celebração e reflexão acerca desse importante legado. Também já está marcado, para o segundo semestre de 2014, o 7º Congresso Brasileiro de Missões. Reacender a chama missionária e solidária da Igreja brasileira parece ser uma preocupação nesta segunda década do século 21. "O legado desses eventos existe e é visível. Melhorou muito o conceito de evangelização e de missões no contexto de pastores e igrejas alcançados pelos CBEs e pelos congressos Lausanne", atesta o teólogo e cientista social Clemir Fernandes, do Instituto de Estudos da Religião (Iser). No seu entender, a principal herança desses grandes encontros é a indivisibilidade entre os conceitos de evangelização e ação social. "Isso resulta em melhores práticas da ação das igrejas." O pastor e historiador Ziel Machado era, nas próprias palavras, apenas um dirigente de seminário, então com 22 anos de idade, que viveu o sonho de CBE I. Hoje, faz uma autocrítica: "Reconheço que não fomos capazes de 'surfar a onda' da unidade proposta pelo congresso. Fomos tomados de susto pelo tipo de protestantismo que surgiu nos anos seguintes e deslocados do centro de influência pelo crescimento e presença do movimento neopentecostal na mídia". Dizendo que, de certa forma, a Igreja perdeu sua relevância, Ziel acha que os evangélicos ainda não encontraram um rumo que torne possível uma presença unida e relevante na sociedade brasileira. "Contudo, a esperança não morreu; o caminho ficou apenas mais longo, mas seguiremos marchando", sentencia.

voltar ao topo