Menu

Mãos dadas pela relevância

Aliança Cristã Evangélica Brasileira surge com proposta de incentivar Igreja à unidade e à ação.

A Igreja Evangélica brasileira pode ser considerada, assim como o país onde está plantada, um gigante adormecido. Apesar do seu tamanho – há quem fale até em 50 milhões de crentes, o que representaria algo em torno de 25% da população nacional –, ela sofre com a falta de unidade e de relevância social. Pois é com a proposta de mudar esse quadro que um grupo influente de pastores, líderes evangélicos e empreendedores cristãos do terceiro setor têm se reunido há menos de um ano. O tempo é curto, mas a inquietação é antiga. O compromisso do grupo é apresentar ao país, no próximo dia 30 de novembro, a Aliança Cristã Evangélica Brasileira (ACEB), que já surge como a mais abrangente e representativa entidade associativa do segmento. Ela deve congregar denominações, associações, movimentos, missões e redes sociais em torno de objetivos comuns – entre os quais, sobretudo, o maior mandamento de Cristo aos seus seguidores, o de amar ao próximo como a si mesmos.

Com a data já marcada, o grupo de trabalho avança nos preparativos. O primeiro encontro aconteceu em 14 de dezembro do ano passado, na Igreja Batista da Água Branca (IBAB), em São Paulo. Ali, noventa líderes se reuniram para traçar um plano de ação que pudesse servir de base ao organismo. Não é tarefa fácil. Até hoje, iniciativas semelhantes malograram ou acabaram servindo apenas aos interesses de grupos corporativos (ler abaixo). Ficou acertado que a declaração de fé e conduta da ACEB se pautaria pelo Pacto de Lausanne e teria como inspiração a Evangelical Alliance, do Reino Unido, entidade com 165 anos de existência e sólida trajetória de atuação e representação da Igreja.

“A Aliança quer expressar um testemunho de serviço à nossa sociedade, na medida em que ela abraça diferentes segmentos do povo evangélico no Brasil”, define o pastor luterano Valdir Steuernagel, dirigente da Visão Mundial e do Centro de Pastoral e Missão, de Curitiba (PR). Ele tem sido um dos principais articuladores da ACEB e elaborou o convite para que diversas lideranças de todo o país estivessem juntas em torno do projeto. “Temos objetivo de servir como ponto de encontro das diferentes expressões evangélicas que existem e ministram em nosso país. A representatividade da Aliança se dá na exata medida do seu testemunho de serviço”,continua.

Além de entidades como Visão Mundial Brasil, Servindo Pastores e Líderes (Sepal), Rede Evangélica Nacional de Ação Social, Mocidade para Cristo (MPC) e Associação de Missões Transculturais Brasileiras, a ACEB já nasce com o apoio de personagens importantes da Igreja nacional. Gente como os pastores Fabrício Cunha, Oswaldo Prado, Welinton Pereira e Ariovaldo Ramos, além do sociólogo Clemir Fernandes, da missionária Durvalina Bezerra e do advogado Cícero Duarte, entre muitos outros, têm participado das escutas regionais. “Estamos trabalhando em documentos, como uma confissão de fé e uma carta de princípios, cuja minuta será apresentada em uma reunião de trabalho, em agosto”, adianta o pastor Wilson Costa, secretário-executivo do Setor Brasil da Fraternidade Teológica Latinoamericana e também articulador da ACEB.

 

Caráter comunitário – O segundo encontro aconteceu em junho, na Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro. Desde então, o grupo tem se debruçado sobre as pautas de atuação da entidade. “A ACEB procurará preencher lacunas onde, porventura, os evangélicos não estejam atuando de maneira incisiva”, esclarece o pastor e missionário Silas Tostes, da Missão Antioquia, outro dos coordenadores da nova entidade. Questões relativas ao posicionamento cristão diante de temas que envolvam ética, cidadania, justiça, infância e juventude, meio ambiente e missiologia já despontam como prioridade.

Ficou estabelecido também que o organismo será dirigido por um conselho, a fim de evitar personificações. “O que está claro para nós é que a ACEB não quer ser uma associação de indivíduos, mas de denominações, ministérios e organizações”, diz Steuernagel. Além disso, todos os cargos da entidade serão de caráter voluntário e o estatuto vetará a percepção de qualquer remuneração por serviços prestados. “Numa aliança assim, os membros são aqueles que estão engajados, e as iniciativas são tomadas na medida em que desafios e compromissos se apresentam”.

A entidade surge mesmo num momento de grandes questionamentos à comunidade evangélica brasileira. Recentes escândalos envolvendo políticos evangélicos – como o caso da já famosa “oração da propina”, em que parlamentares ligado a igrejas de Brasília foram flagrados agradecendo a Deus pela oportunidade de praticar corrupção ativa – e dirigentes de igrejas acusados de desvio de recursos dos fiéis pululam na imprensa. Além disso, o segmento tem sido chamado a se posicionar diante de questões novas, como os avanços na área da biomedicina, a união civil de pessoas do mesmo sexo e a legalização do aborto – assuntos sobre os quais, diga-se de passagem, boa parta das igrejas brasileiras sequer se posiciona. Mas se as discussões ocorrerem em torno de uma mesa comum, é possível apontar caminhos.

Já em relação à extrema diversidade do panorama evangélico brasileiro, que inclui desde igrejas históricas centenárias a grupos neopentecostais de teologia extremista, a posição da entidade vai no sentido da convergência. “O que nos vai definir são compromissos de conduta, que apontem para um jeito de viver nossa fé de maneira que promova os valores do Reino de Deus. Estaremos de braços estendidos a todos que queiram caminhar conosco”, garante o pastor Valdir Steuernagel. “Temos consciência de que há uma grande demanda no que se refere a presença e posicionamento público de setores do povo evangélico brasileiro”.  Contudo, ele garante que a preocupação principal da ACEB neste primeiro momento é marcar sua presença testemunhal. “Nossa caminhada na unidade será visível se nosso compromisso com o serviço a Deus na sociedade for crível”, sentencia. (Colaborou Francisco dos Santos)

 

Princípios da ACEB

·      A Aliança Cristã Evangélica Brasileira (ACEB) é composta por organizações evangélicas, uma rede que visa a ser expressão de unidade dos cristãos evangélicos

 

·      A ACEB pretende fomentar a reflexão, a ação e o posicionamento da Igreja em questões éticas, teológicas, missiológicas, socioambientais e ligadas à justiça e aos direitos humanos

 

·      A entidade, constituída por tempo indeterminado, é autônoma, soberana e independente em suas decisões, não estando subordinada a qualquer outra instituição ou entidade

 

·      A associação estimula as pessoas com ela envolvidas a viver uma fé viva em Cristo, contextualizada, em comprometimento coma fé e à participação regular em uma igreja local

 

·      A ACEB procurará ser representativa do vasto contexto evangélico brasileiro, bem como das regiões brasileiras onde ela estará organizada

 

Representatividade fraca

Criada em 1991, a Associação Evangélica Brasileira (AEVB) surgiu num contexto de grande efervescência social. Capitaneada pelo pastor Caio Fábio D’Araújo Filho, então ligado à Igreja Presbiteriana, o órgão tornou-se interlocutor da Igreja Evangélica nacional junto a instâncias políticas, governamentais e a imprensa. Até hoje considerada a principal iniciativa do gênero no país, a AEVB participou ativamente de movimentos sociais, como a passeata Rio, Desarme-se, em 1995, e de discussões éticas e multidisciplinares. Contudo, a entidade não resistiu aos problemas que afetaram o ministério de seu fundador e principal dirigente. Abalado por problemas pessoais e com o nome envolvido numa trama política para desestabilizar o governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, Caio saiu de cena em 1999. Hoje, ele dirige uma comunidade cristã de perfil alternativo, o Caminho da Graça. Mas a AEVB enfraqueceu-se e seus líderes posteriores jamais conseguiram trazê-la de volta ao esplendor dos primeiros anos. Já outras iniciativas, como o Conselho Interdenominacional dos Ministros Evangélicos do Brasil (Cimeb) e a Ordem dos Ministros Evangélicos (Omeb), carecem de abrangência ao congregar apenas pastores e possuir caráter mais setorizado.

voltar ao topo