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Opção pelo entendimento

Aliança Cristã Evangélica é lançada com proposta de unir um segmento marcado por divisões.

O desejo de união na Igreja é quase tão antigo quanto a própria pregação do Evangelho. E no Brasil, onde sua falta é um grande obstáculo para o testemunho de cerca de 200 mil igrejas das mais diferentes denominações e teologias, alcançá-la é quase uma utopia. Mas, como tudo é possível ao que crê, os protestantes brasileiros deram um passo decisivo na luta por esse ideal no último dia 30 de novembro. Em uma assembleia que durou o dia inteiro na Catedral Metodista, no centro de São Paulo, cerca de 300 pessoas, entre as quais alguns dos mais destacados líderes evangélicos do país, participaram do ato de fundação da Aliança Cristã Evangélica Brasileira. Após quase dois anos de reuniões e consultas por todo o território nacional, o começo é promissor: congregando denominações, associações, movimentos sociais, entidades do Terceiro Setor, agências missionárias e redes sociais em torno de propósitos comuns, a Aliança, como tem sido chamada, já é a mais abrangente e representativa entidade do segmento.

Os desafios que enfrentará também são imensos, especialmente o de atrair os pentecostais e carismáticos, disparados a maior parte dos cerca de 37 milhões de cristãos evangélicos brasileiros (projeção com dados preliminares do Censo 2010), mas com uma participação discretíssima até agora. A reunião em São Paulo, além de oficializar o surgimento da organização, foi importante para afinar discursos. Entre muitas propostas, aprovou-se a Carta de princípios e diretrizes, documento pautado pelo Pacto de Lausanne e com forte inspiração na Evangelical Alliance, do Reino Unido. Havia também grandes expectativas sobre a eleição daqueles que estarão à frente da entidade. Porém, ao contrário do que alguns apostavam, a opção não foi por formar uma diretoria e, sim, trabalhar com um Conselho Geral, formado por 15 homens e mulheres. Nomes conhecidos, como o do teólogo luterano Valdir Steuernagel, dirigente da Visão Mundial e do Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba (PR); bispo Walter McAlister, líder da Aliança das Igrejas Cristãs de Nova Vida; Clemir Fernandes, sociólogo e colaborador do Instituto de Estudos da Religião (Iser); e os pastores Oswaldo Prado, missionário de Servindo Pastores e Líderes (Sepal) e Fabrício Cunha dos Santos, da Igreja Batista da Água Branca, em São Paulo.  

Além desses, a nova Aliança, que optou por não mais usar as siglas Alceb ou Aceb, terá assessores para áreas específicas. Os primeiros já foram escolhidos e divulgarão a entidade em suas andanças Brasil afora. Fazem parte desse grupo os pastores Ariovaldo Ramos, Carlos Queiroz (colunista de CRISTIANISMO HOJE) e o presbiteriano Ricardo Barbosa. Completam o time os assessores Welinton Pereira, na área de trabalhos sociais; Airton Palm e Elias Fahur, no setor de finanças; Cícero Duarte, que cuidará do departamento jurídico; Silas Tostes, encarregado de missões; e Durvalina Bezerra, coordenadora de intercessão. “Essa equipe, bastante diversificada e representativa, é a resposta à convocação evangélica pela unidade da Igreja”, explica Steuernagel. “Precisamos agora trabalhar muito para o grupo ganhar corpo e respeito.”

 

PASSADO CONFUSO

A preocupação em tornar a associação representativa têm um só objetivo: não repetir os erros do passado, responsáveis por enterrar projetos e iniciativas semelhantes. A primeira tentativa de unir o protestantismo nacional em torno de objetivos comuns aconteceu em 1934, com a criação da Confederação Evangélica do Brasil (CEB). Durante três décadas, ela promoveu cooperação entre igrejas históricas como Presbiteriana, Luterana, Metodista, Congregacional e até a pentecostal Assembleia de Deus nas áreas de ação social, educação cristã, trabalhos de juventude e atividades diaconais. Nos anos 60, a radicalização política e o descontentamento social que tomaram conta dos setores mais progressistas da sociedade brasileira acabaram por contagiar também a CEB. Em 1962, por exemplo, a entidade promoveu no Recife (PE) uma conferência com o tema “Cristo e o processo revolucionário”. Era a primeira vez que cristãos e marxistas se reuniam para discutir a relação entre a Igreja e a realidade social e cultural do país – assuntos bem à frente de seu tempo, cujos debates reuniram intelectuais como o médico Josué de Castro, os economistas Paul Singer e Celso Furtado e o sociólogo Gilberto Freyre. Ousadias assim fizeram com que a CEB fosse uma das primeiras vítimas do regime militar. Em 1964, logo após o golpe de Estado, a entidade foi uma das primeiras a sofrer sob os coturnos e acabou fechada.

Depois de um longo hiato histórico, a bandeira da unidade seria novamente levantada em 1991, mais uma vez num contexto de efervescência social. Liderada pelo pastor presbiteriano e ativista social Caio Fábio D’Araújo Filho, surgia a Associação Evangélica Brasileira (AEVB), que se tornaria a principal interlocutora dos crentes junto a instâncias políticas, governos e a imprensa. A entidade participou ativamente diversos movimentos sociais, como o Celebrando Deus com o planeta Terra, Rio desarme-se e Reage Rio. Porém, a entidade foi efêmera. Enredado em problemas pessoais e com o nome envolvido numa trama para desestabilizar o governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, Caio Fábio afastou-se da vida pública em 1999. Foi um golpe fatal também para a AEVB, que não conseguiu mais se levantar desde então.

Outras entidades de representação dos evangélicos existem, mas sofrem com a falta de abrangência e o excesso de personalismo de alguns de seus líderes – além de um nem sempre conveniente alinhamento político-partidário, coisa que a recém-criada Aliança promete evitar a todo custo. É o caso de corporações pastorais, como o Conselho Interdenominacional dos Ministros Evangélicos do Brasil (Cimeb), Ordem dos Ministros Evangélicos (Omeb) e grupos locais, como o Conselho de Pastores de São Paulo (CPESP). Para evitar todos esses problemas, o discurso na renovada Aliança Cristã Evangélica Brasileira tem emprestado lições do passado. “Esse movimento é fruto de um processo histórico e da consulta dos líderes evangélicos. Por isso, preferimos uma organização horizontal, sem uma estrutura fechada”, explica a missionária Durvalina Bezerra.

 

DESCENTRALIZAÇÃO

Na reunião realizada na Catedral Metodista, um dos momentos de maior tensão foi justamente quando a discussão voltou-se para a organização. Boa parte dos presentes foi contra até mesmo a entidade ter um número no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas, o CNPJ. A solução encontrada para evitar personalismos e bandeiras estreitas foi o de copiar o modelo de organização de redes, como o praticado por entidades como a Rede Evangélica Nacional de Ação Social (Renas). “Concordamos que precisa haver uma institucionalização, mas não antes de se ter mais substância no trabalho. Dessa forma, preferimos uma organização mais descentralizada, com coletivização na discussão dos processos decisórios”, aponta o bispo McAlister.

Tão importante quanto superar as desconfianças será conquistar os setores evangélicos ainda não envolvidos. Apesar de representativas, as consultas e reuniões ainda não conseguiram atrair as grandes denominações neopentecostais, responsáveis pelo crescimento numérico do segmento nas últimas décadas. Há dúvidas como sobre seria esse relacionamento; afinal, apesar de práticas e pontos de vista discordantes dos evangélicos históricos, eles são detentores de grande força de mídia, justamente a face mais difundida da religião cristã não-católica atualmente no país. No final, a discussão novamente terá que passar por uma pergunta que tem dado o que falar: afinal, o que é ser evangélico no Brasil?

“Queremos atrair todos os segmentos evangélicos, inclusive os pentecostais e carismáticos”, garante o luterano Steuernagel, mostrando que o alvo da entidade continua amplo. Ainda que fazer isso não seja simples e o caminho para tanto esteja obscuro, a Aliança aposta no diálogo como primeiro passo. Mas é certo que os princípios já discutidos da entidade não serão negociados – mesmo que, para isso, seja preciso abrir mão de querer representar todos os evangélicos brasileiros. Depois dos louvores e da oração que empossou a nova direção, a máxima “quem quer representar todos, acaba não representando ninguém” podia ser ouvida de muitas bocas. As palavras de Steuernagel na coletiva de lançamento confirmam isso: “Há muitos evangélicos atualmente, grupos e teologias diferentes. Quem subscreve nossos princípios e os pratica congrega conosco. Não queremos representar todos os crentes, mas marcar o começo de uma caminhada evangélica no Brasil”. Resta saber se todos dirão “amém”.

 

 

Desafios iminentes

 

A Aliança Evangélica já surge tendo que se defrontar com diversos temas sociais e realidades que afetam a Igreja brasileira:

 

Liberdade de expressão – Governo e Congresso anunciam prioridade na discussão do Plano Nacional dos Direitos Humanos (PNDH3) e do Projeto de Lei 122/06, que versam sobre assuntos delicadíssimos para o segmento religioso

 

Política – A chamada bancada evangélica aumentou consideravelmente, mas persistem suspeições sobre sua atuação. Escândalos como o do mensalão (venda de votos) e o das sanguessugas (fraudes na área da saúde) envolveram parlamentares ligados a igrejas

 

Relações intereclesiásticas – Práticas teológicas heterodoxas, suspeitas de malversação de recursos e isolacionismo caracterizam boa parte dos grupos neopentecostais, segmento que mais cresce na Igreja nacional. Atraí-los para a Aliança e costurar pontos de coesão e ação conjunta será tarefa difícil

 

Ciência e sociedadeA sociedade espera posições claras da Igreja Evangélica sobre temas como a nova constituição da família, terapias genéticas, direitos dos homossexuais, aborto e eutanásia

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