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A fé floresce no Caribe

Abertura nas relações entre Estados Unidos e Cuba inaugura uma nova fase para a Igreja da ilha.

Em uma noite de quinta-feira, uma multidão de jovens cubanos se reúne no calçadão de Havana, perto dos fortes históricos que guardam o porto de Cuba. Ao lado, uma dúzia de carros alegóricos começa a tocar salsa, ritmo típico do Caribe. O grupo não gosta; com a luz do farol iluminando a reunião, rapazes e moças terminam de cantar um louvor que fala sobre o desejo de que suas vidas sejam como “perfume aos pés de Cristo”. Eles, então, começam a declarar em alta voz: “Yo soy Cristiano / Para que tú lo sepas /No me falta nada / Mi vida está completa” (“Saiba, então, que eu sou cristão. Nada me falta. Minha vida está completa”). Em seguida, um pastor faz a multidão virar de frente para Habana Vieja, o centro de turismo da capital, do outro lado da rua. Eles levantam seus celulares para o alto com a lanterna acesa e gritam: “Eu sou luz em meio à escuridão”.

A recente reinauguração da embaixada dos Estados Unidos na ilha de Fidel Castro foi um marco histórico, político e, também, espiritual. Após mais de meio século de hostilidades entre a nação caribenha e a superpotência global, la apertura, a nova abertura econômica e diplomática entre Cuba e EUA, inaugura um novo tempo. O ano de 2015 ficará marcado na geopolítica pelo encontro entre o presidente americano Barack Obama e o líder cubano Raúl Castro, irmão do mítico Fidel, que comandou a revolução comunista de 1959 que deixou os Estados Unidos de cabelos em pé no auge da Guerra Fria. O fim da inimizade e a flexibilização das viagens e da comunicação entre os dois lados foram apenas o começo, dizem os analistas. Embora a reversão total do embargo comercial imposto a Cuba dependa da aprovação do Congresso americano, muitos cubanos esperam que a ilha não permaneça congelada no tempo.

Cristãos de ambos os lados das águas caribenhas que separam Cuba da Flórida se surpreenderam com a abertura. Certamente, muito do legado da Revolução Cubana permanecerá. Porém, mesmo antes de a bandeira americana ser levantada em Havana pela primeira vez, depois de 54 anos, as estrelas e listras presentes nela podiam ser vistas nas camisetas dos homens e nas calças das mulheres por toda a capital.

Em uma grande avenida comercial da Havana, uma multidão se reúne à meia-noite. Não se trata de uma fila para a Cafeteria Vera, lojinha azul e rosa de esquina que tem mais mesas para clientes do que mercadorias para venda. A multidão está empoleirada nos bancos, muretas e meio-fio. Todos estão com o rosto iluminado, e não é pelos célebres charutos cubanos. O que brilha são as telas de smartphones, tablets e laptops. Cerca de 40 hotspots públicos chegaram às principais cidades cubanas em julho. É possível comprar um cartão de uma hora de acesso ao wi-fi por 3 pesos (cerca de US$ 3, ou 12 reais). Muitos usuários navegam pelo facebook, enquanto outros usam o vídeochat. “Eu nunca vi as pessoas tão felizes na rua”, conta um rapaz de 29 anos, vendedor de cartões, que ostenta uma camisa com a bandeira dos EUA, um colar da Virgem de Guadalupe e uma tatuagem no antebraço. “Isso é parte do milagre que estamos vivendo”, diz a esposa de um pastor. Hoje, os turistas que forem tirar foto do porto de Havana no domingo de manhã encontrarão algo inimaginável há pouquíssimo tempo: um culto evangélico realizado com alto-falantes e até danças coreografadas.

TEMOR DO CONSUMISMO

A Alcance Vitória é uma das igrejas que estão aproveitando todas as novas oportunidades. Ela trabalha com jovens membros de gangues, usuários de drogas e pessoas envolvidas em prostituição. Antes, o ministério era feito meio em segredo, à noite, por evangelistas que agiam com toda discrição. Agora, a igreja se reúne nas manhãs de domingo em um dos lugares mais públicos de Havana: La Punta, onde o Malecón, famosa orla da cidade, se junta ao porto. O pastor Abel Pérez Hernández conta que a sua congregação de treze anos possui agora 500 membros e quarenta e duas células que se reúnem semanalmente. Ao lado dos canhões coloniais e de coloridos guarda-sóis, os creyentes cantam louvores em ritmo de salsa e reggae, enquanto cerca de dez jovens dançam em frente ao paredão pichado. Uma equipe missionária brasileira participa da celebração. É a quarta visita do grupo ao país. Com a desvalorização do real, a despesa mais que dobrou, mas Filipe Santos, diretor missionário de uma igreja batista de São Paulo, não reclama: “Isso mostra como é importante para nós estarmos juntos”, diz, enquanto canta e bate palmas.

O sentimento geral da Igreja cubana baseia-se em três expectativas: a esperança de uma vida melhor, econômica e politicamente; a preocupação com a inevitável avalanche de novas ideologias e consumismo; e a certeza de que tanto os cristãos americanos quanto os cubanos não estão preparados para as rápidas mudanças em curso. Pelo lado mais pessimista, os líderes cristãos se perguntam se os visitantes norte-americanos podem aniquilar a cultura cubana com o seu materialismo e nominalismo. “A nossa mentalidade ainda é muito marxista, mesmo depois de termos sido impedidos de consumir durante 50 anos”, conta Alfredo Forhans Hernández, diretor do campus Holguín do Seminário Evangélico New Pines. “Agora, os EUA podem tornar o nosso consumo uma realidade. Nós não estamos preparados para isso”.

Os cristãos de Cuba têm prosperado, a despeito da pobreza e da política restritiva que imperou na ilha por tanto tempo. Eles se orgulham de dizer que o seu improvável avivamento, que já dura décadas, só perde para o da China. “É incrível. As pessoas vêm por conta própria à procura de Deus”, conta um líder batista local que, por uma precaução justificável, ainda prefere não revelar o nome. No entanto, a abertura levanta uma preocupação: o avivamento continuará sendo valorizado depois que os cubanos adquirirem recursos? “O grande crescimento da igreja, mesmo com os nossos recursos limitados, não será mais relevante”, comenta o pastor.

“Há muitos pássaros que desejam pousar em Cuba”, compara o reitor do Seminário Teológico Batista Oriental em Santiago de Cuba, Eduardo González del Río. A metáfora é uma referência às pessoas que chegam de fora trazendo suas doutrinas e costumes religiosos. “Cuba esteve fechada e, agora, suas portas estão se abrindo”, completa Yaniel Marrero Báez, presidente da Faculdade Evangélica de Estudos Teológicos, em Placetas. “No passado, havia tão poucas oportunidades para os visitantes, que nós acolhíamos todos. Agora, porém, a Igreja cubana terá opções para escolher.”

Um sinal dos novos tempos é ver os cristãos cubanos circulando em seus antigos carros ouvindo CDs do pastor guatemalteco Cash Luna e de outros pregadores do Evangelho da prosperidade. “É uma guerra de mídia”, diz Gonzaléz. “Infelizmente, não temos bons cristãos fazendo o mesmo”. O governo cubano ainda restringe publicações cristãs e acesso à mídia, mas cada um se vira como pode – inclusive, adquirindo literatura e CDs no mercado pirata ou comprando pela internet, que já não é tão vigiada.

COLABORAÇÃO X IMPOSIÇÃO

De maneira geral, os pastores cubanos estão ansiosos para colaborar com mais igrejas americanas. Eles, porém, querem ser respeitados, apesar das disparidades em relação a tamanho e riqueza. “O problema é quando os estrangeiros vêm nos dizer o que precisamos fazer. Nós estamos aqui há muitos anos, espalhamos a Palavra em meio a muitas dificuldades e fomos capazes de obter sucesso”, conta um pastor batista. “Nós amamos a ideia de colaboração, mas não de imposição”.

A ajuda, claro, é bem vinda, ainda mais no que se refere à distribuição de um produto cuja circulação era restrita: a Bíblia Sagrada. Em apenas um mês, a International Missions Board (IMB), maior agência missionária dos Estados Unidos, enviou 83 mil exemplares em espanhol para Cuba. As Sociedades Bíblicas Unidas planejam, para os próximos anos, distribuir levar 1 milhão de bíblias no país. Há relatos de que existem, extraoficialmente, cerca de 1,2 mil igrejas evangélicas em Cuba, já que o regime dos irmãos Castro – Fidel, que afastou-se do poder em 2008 e foi substituído por Raúl – proibia a abertura de templos “não registrados”. Para Enoel Gutiérrez Echevarría, presidente do Seminário Evangélico Metodista de em Havana, o momento é de reflexão cautelosa. “Nós estamos em um contexto especial. Não podemos copiar o que o resto do mundo está fazendo”, diz. “É claro que não somos perfeitos. Porém, somos especialistas em Cuba. A Igreja nacional é um exemplo de avivamento para o mundo. Aquilo que os outros têm a oferecer não deve interromper o que estamos fazendo”, sentencia.

González está feliz com a parceria entre sua igreja e um ministério de Dallas, nos EUA, cujo foco está no treinamento de liderança, e não em financiamento. “Se eles nos dessem dinheiro, as pessoas atribuiriam o sucesso de nossa igreja ao financiamento americano, e não a Deus”, ele diz. “É importante que os americanos não representem apenas notas de dólares para nós”. É verdade que, em Cuba, um médico pode ganhar três vezes mais trabalhando como ajudante de garçom do que em sua profissão e produtos básicos, como carne, açúcar e até papel higiênico, são difíceis de adquirir. “Mesmo precisando de ajuda financeira, a coisa de que mais necessitamos é aprender a trabalhar em grupo”, diz um líder cristão. “Muitos pastores são vistos como chefes e fazem tudo. Existem poucos conselhos”. Uma das razões para isso é a cultura de vigilância do regime castrista. “Nós não sabemos em quem podemos confiar nos grupos. Qual das pessoas que se sentam conosco nos encontros de pastores pode pertencer ao outro lado?”

No entanto, os cristãos cubanos nunca se sentiram mais corajosos. Eduardo E. Pérez Ramos usa o seu próspero estúdio de fotografia para conectar as igrejas de Cuba. Ele tenta captar e divulgar eventos que mostram uma Igreja forte, como aconteceu em uma recente reunião na cidade de Holguín, onde milhares de cristãos se ajuntaram nas ruas. A sua foto preferida, intitulada Uma ilha, um coração, capta o encontro nacional da Liga Evangélica de Cuba em um acampamento metodista em Santa Clara. O grupo forma o modelo exato da ilha e cada pessoa representa a sua província de origem.

No entanto, há bastante coisa para se comemorar. Os evangélicos têm feito grandes progressos na aprendizagem à distância. Um dos exemplos são os cursos mantidos pelo Centro de Treinamento Cencap, programa iniciado por Los Pinos Nuevos, uma denominação indígena. Agora, em seu quinto ano, o projeto já treinou mais de 51 mil pastores e líderes de 21 denominações. O foco do treinamento mudou recentemente: de como os pastores podem administrar melhor as suas congregações para como as igrejas podem servir melhor às suas comunidades. A prioridade agora é ajudar a alimentar crianças e idosos carentes, e o governo está simpático à ideia de firmar parcerias com os grupos cristãos. “Podemos compartilhar o Evangelho sem pregar”, explica um jovem cubano enquanto espera por três carregamentos de arroz. Ele e várias pessoas formam uma fila, deslocando caixas de um caminhão de lixo para dentro de uma igreja, tarefa que só termina em plena madrugada.

A capela do Seminário Batista Ocidental, em Havana, dispõe de um mapa de madeira do mundo. Várias setas saem de Cuba para todas as direções. A tendência é interpretá-las como a emigração dos cubanos; elas, porém, indicam um forte desejo missionário. Cuba já foi temida por ser uma possível disseminadora da revolução comunista no Ocidente. Nos anos 1960, por exemplo, a ilha quase foi o epicentro de uma guerra nuclear entre Estados Unidos e a então União Soviética, patrocinadora das aventuras de Fidel Castro. Agora, quem diria, o país está prestes a exportar o Cristianismo. Em 2015, os batistas enviaram os primeiros missionários cubanos em tempo integral em 54 anos. Primeiro, um casal de obreiros seguiu para o Equador. O próximo alvo é a África: há equipes se preparando para trabalhar no Senegal e na Guiné Equatorial. O objetivo final é o Oriente Médio e a Janela 10/40, a imensa região imaginária que abrange boa parte do mundo que não conhece Jesus.

Como as restrições governamentais ao turismo impediram que as igrejas enviassem missionários, elas criaram métodos eficientes de anunciar a mensagem de Cristo. Um deles são as missões médicas, aproveitando a tradição da medicina cubana. “Agora as portas se abriram”, diz um líder batista. “E nós estamos muitos animados por podermos realizar livremente o nosso sonho”. O dinheiro, no entanto, continua sendo uma barreira. “Nós não temos os recursos financeiros para enviar as pessoas, mas temos os recursos humanos”, diz o reitor Eduardo González del Río. “Nós cremos que Deus está preparando algo grande para nós”, entusiasma-se.

O programa missionário batista Cubans to the Nations possui 250 pessoas em treinamento, segundo o diretor Karell Lescaille. “Nós queremos aprender como os outros países fizeram suas missões mundiais e colocar o nosso tempero cubano”, diz. Numa inversão da lógica de Davi e Golias, agora é a pequena ilha que quer ajudar o gigante do Norte. “Talvez, Cuba possa levar um avivamento para os EUA”, continua González. “Os americanos trouxeram o protestantismo para nós; portanto temos uma dívida com eles”. O que os líderes cristãos e a Igreja cubana querem, a despeito da euforia geral com a abertura, é preparar Cuba e seu povo para as mudanças que há de vir – e não deixar que elas contaminem sua genuína fé morena, que sobreviveu ao comunismo e está pronta para dar frutos para o mundo.

(Tradução: Julia Ramalho)

 

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