Menu

Bola murcha

Pastor que coordena protestos contra a Copa do Mundo diz que investimentos não vão melhorar vida dos pobres.


Às vésperas da Copa do Mundo no Brasil, um clamor ruidoso toma as ruas das doze cidades-sede do Mundial. "Não à Copa" é o slogan de grupos organizados, e outros nem tanto, desde meados do ano passado, quando protestos de rua explodiram por todo o país nos dias que antecederam a Copa das Confederações. Agora, com a proximidade dos jogos e o incremento da onda de manifestações generalizadas pelo país – várias delas, terminando em violência –, o movimento se intensificou. Ninguém sabe, ainda, que dimensão isso poderá tomar durante a competição, e nem se ela poderá ser efetivamente prejudicada, temor expresso tanto pela Federação Internacional das Associações de Futebol, a Fifa, como pelas três esferas de governo envolvidas na organização do Mundial. Fato é que o brado popular contra os bilionários gastos públicos já ficou registrado na história contemporânea do país.

Mantras como "Não vai ter Copa" e "Escolas e hospitais no padrão Fifa" são repetidos pelos manifestantes. E um dos principais movimentos do gênero tem um pastor à frente: o presbiteriano Antônio Carlos Costa, coordenador do Rio de Paz. Ele e seu grupo têm percorrido diversas localidades realizando atos pacíficos, mas bem visíveis. Uma das ações de maior impacto na mídia foi espalhar bolas de futebol pintadas com cruzes vermelhas nos gramados do Congresso Nacional, em Brasília; nas areias da Praia de Copacabana, no Rio; e até nos jardins da imponente sede da Fifa, em Zurique (Suíça). "Estivemos também em favelas cariocas, como Varginha, Mandela, Manguinhos, Nova Holanda e Parque União", conta o pastor. As bolas pintadas simbolizam as vítimas da violência no Brasil. São quase 50 mil assassinatos por ano – número de mortes superior ao de países que enfrentam guerras civis declaradas.

"AJUDA ZERO"

O objetivo das manifestações, explica o religioso, é criticar os gastos estratosféricos com um evento que dura apenas um mês. A reforma e ampliação de alguns estádios da Copa, como o Maracanã, no Rio, e o Mané Garrincha, em Brasília – cujo campeonato regional é um dos menos expressivos do país – superou R$ 1 bilhão. "Queremos mexer com a cultura política do país, tão caracterizada pelo uso de verba pública à revelia do povo e sem retorno para a população". O Rio de Paz participou de um encontro, no mês de abril, com o secretário da Presidência da República, Gilberto Carvalho, que teve como objetivo tratar dos gastos públicos no Mundial. Sobraram questionamentos e faltaram justificativas convincentes. O governo insiste na oportunidade que a Copa representa para o país em termos de melhorias estruturais, turismo e geração de empregos e renda. Porém, uma das críticas recorrentes é de que o prometido legado da competição, através de obras públicas em infraestrutura e melhoria dos serviços públicos, ficará bem aquém do prometido – isso, sem falar que os imensos atrasos nas obras, além do desgaste para o país, multiplica os custos para a conclusão dos projetos.

"Esperamos que, através dessa pressão política nas ruas, algum legado dessa competição fique para as comunidades pobres do Brasil. Até agora, na vida das favelas em que trabalhamos, o retorno social é zero. Não há nada tão concreto quanto os estádios de futebol que foram preparados para a Copa no Brasil", protesta o pastor. "Não podemos mais conviver com escolas que não educam, hospitais que não curam e segurança pública que não protege". Antônio Carlos, por outro lado, lamenta a falta de apoio evangélico ao movimento: "Ajuda da igreja, até agora, quase zero."

voltar ao topo